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ARTIGO - Campanha da Fraternidade e sua importância para o tempo da Quaresma

  • há 3 horas
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Pe. Rodrigo Paiva Coordenador arquidiocesano de Campanhas

A Quaresma é, na vida da Igreja, um tempo privilegiado de conversão, revisão de vida e renovação do compromisso batismal. Desde os primeiros séculos, este itinerário espiritual é marcado pela escuta mais atenta da Palavra, pela intensificação da oração, pelo jejum e pela prática concreta da caridade. Nesse horizonte, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil abraçou a Campanha da Fraternidade, desde seus primeiros passos, como expressão concreta da dimensão social da fé vivida no tempo quaresmal, integrando conversão pessoal e transformação das estruturas que ferem a dignidade humana.


O magistério da Igreja tem reiterado que a conversão cristã não se limita ao foro íntimo, mas implica responsabilidade histórica. A Constituição pastoral Gaudium et Spes, do Concílio Vaticano II, recorda que “as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje” são também as da Igreja. A Quaresma, enquanto tempo forte de retorno ao Senhor, torna-se, portanto, ocasião propícia para discernir à luz do Evangelho as situações que clamam por justiça e solidariedade. A Campanha da Fraternidade insere-se exatamente nesse dinamismo: ela traduz o chamado à metanoia em compromisso social concreto.


Não por acaso, a Campanha da Fraternidade nasceu em solo potiguar. Foi em nossa Arquidiocese de Natal, na Paróquia de Nossa Senhora do Ó, em Nísia Floresta, na década de 1960, que germinou a experiência que mais tarde se tornaria iniciativa nacional. A intuição pastoral de articular penitência quaresmal e partilha fraterna revelou-se fecunda e profética. Aquilo que começou como gesto local de solidariedade e conscientização amadureceu, sob a condução da Igreja no Brasil, como instrumento permanente de formação da consciência cristã e de incidência social à luz da Doutrina Social da Igreja.


Os textos-base de cada edição reafirmam essa vocação pedagógica. Eles não apenas apresentam um tema e um lema, mas oferecem um itinerário formativo que integra ver, julgar e agir, em profunda sintonia com a tradição eclesial latino-americana. A edição de 2026, em continuidade com o magistério recente e com os desafios contemporâneos, convida-nos a uma leitura crente da realidade, iluminada pela Palavra de Deus e comprometida com a promoção da dignidade humana. Assumindo o tema: “Fraternidade e moradia” sob a iluminação bíblica: “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14). Ao situar a reflexão proposta no contexto quaresmal, a Igreja no Brasil recorda que a verdadeira penitência se manifesta em obras de justiça, reconciliação e cuidado com os mais vulneráveis, este ano, tendo como foco o dom de “morar” que embora sendo um direito constitucional, padece profunda negligência para uma parcela significativa de irmãos e irmãs brasileiros.


Além disso, a Campanha da Fraternidade possui uma dimensão litúrgica e espiritual que não pode ser subtraída ou diminuída. Inserida no calendário da Quaresma, ela dialoga com as leituras dominicais, com as práticas penitenciais e com a coleta da solidariedade, expressão concreta da partilha. Assim, a espiritualidade quaresmal não se reduz a um exercício individual, mas se abre à comunhão e à responsabilidade social, tornando visível a unidade entre fé e vida.


Desta forma, com esta compreensão, devemos reacender em nossas comunidades a consciência de que a conversão cristã tem sempre uma dimensão social. Retomar as origens históricas da Campanha em nossa Igreja particular é também renovar o ardor missionário que a inspirou. A memória dos primeiros passos dados em Nísia Floresta não é mero dado histórico, mas apelo atual a uma Igreja que, enraizada na oração e na penitência quaresmal, assume com coragem a construção da fraternidade.


Que a Quaresma seja, portanto, o espaço-tempo privilegiado para acolher, aprofundar e concretizar a Campanha da Fraternidade. Ao converter o coração, somos enviados a transformar a realidade. Ao jejuar, aprendemos a partilhar. Ao rezar, discernimos os caminhos da justiça. E, assim, a Igreja que peregrina em Natal, fiel às suas origens e atenta aos sinais dos tempos, poderá continuar oferecendo ao Brasil o testemunho de uma fé que se faz caridade e compromisso histórico.

 
 
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