ARTIGO - A Inteligência Artificial e o Relacionamento com Deus: um perigo iminente?
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eminarista Alexandre Sergio [1]
E-mail: alexandresergiooficial@gmai.com.
As inteligências artificiais têm crescido de maneira impressionante nas últimas décadas, promovendo avanços significativos em diversas áreas do conhecimento, como a medicina, a física, a biologia e os setores tecnológicos das grandes empresas (Big Techs). Diante desse cenário, surge uma questão filosófica e teológica relevante: a crescente confiança na Inteligência Artificial poderia levar o ser humano a transferir para a tecnologia expectativas normalmente associadas à fé e ao relacionamento com Deus?
Essa questão se torna ainda mais relevante diante dos possíveis riscos relacionados ao desenvolvimento da Inteligência Artificial e de sistemas cada vez mais avançados. Nick Bostrom, filósofo sueco, em sua obra Superinteligência: Caminhos, Perigos e Estratégias, alerta para possíveis riscos existenciais decorrentes do desenvolvimento de sistemas superinteligentes capazes de superar, em determinados aspectos, as capacidades humanas. (Bostrom, 2018)
Nesse sentido, se o homem vier a substituir seu Criador pela confiança depositada em tais inteligências artificiais, não seria esse um risco tão iminente quanto aquele apontado por Bostrom? Se, para Bostrom, existe o risco de o ser humano criar uma inteligência capaz de superar suas próprias capacidades, poderíamos pensar também em outro risco: o de o homem, pouco a pouco, transferir para a Inteligência Artificial funções que ultrapassam a simples utilização de uma ferramenta, passando a confiar nela para orientar suas decisões, seus relacionamentos e até mesmo sua existência. Nesse caso, não estaríamos diante de um risco não apenas tecnológico, mas também antropológico e espiritual?
Atualmente, quase tudo perguntamos aos algoritmos: como devemos agir, o que devemos fazer e até mesmo como lidar com situações simples do cotidiano. Por vezes, já chegamos a negligenciar a própria relação humana, como alerta o Papa Leão XIV em Magnifica Humanitas. Ora, se já tendemos a fazer isso com aqueles que vemos, o ser humano, tanto mais poderíamos fazê-lo com Aquele que não vemos, Deus. (Leão XIV, 2026)
Se não alimentamos nossas amizades na vida cotidiana, se trocamos a pessoa pela Inteligência Artificial, corremos o risco de perder aqueles que nos são mais queridos. Uma amizade humana precisa ser cultivada por meio da presença, da escuta, do diálogo e da convivência. Se substituirmos essas relações por uma tecnologia capaz de oferecer respostas e simular uma conversa, poderemos enfraquecer os vínculos humanos.
Do mesmo modo, poderíamos enfraquecer nossa relação com o divino, uma vez que já não alimentamos essa relação íntima com Deus. Já não buscamos o silêncio, a oração, a interioridade e a escuta como outrora. “Já não vos chamo servos, mas amigos” (Jo 15,15), disse Jesus. Sim, Ele é nosso amigo, e uma amizade também pode morrer quando não é cultivada.
Por fim, o que quero refletir, caro leitor, é que, se já não mais nos voltamos para dentro de nós mesmos e não buscamos o Mestre interior que habita em nós, podemos correr o risco de, no mínimo, enfraquecer esse relacionamento tão importante (Agostinho ,De Magistro, 2017). Sim, Ele quer falar conosco, guiar-nos, penetrar mais profundamente do que nós mesmos e revelar-nos quem somos.
A Inteligência Artificial pode oferecer informações, respostas e orientações, mas não pode realizar por nós a busca pelo sentido último da existência, nem estabelecer, em nosso lugar, uma relação de amizade com Deus. Ela pode ser uma importante ferramenta a serviço do ser humano, mas não pode tornar-se aquilo em que o homem deposita sua confiança última, pois somente Deus pode ocupar esse lugar.
REFERÊNCIAS:
AGOSTINHO, Santo. De magistro. Campinas: Kírion, 2017.
BOSTROM, Nick. Superinteligência: caminhos, perigos, estratégias. Rio de Janeiro: DarkSide Books, 2018. E-book.
LEÃO XIV. Preservar vozes e rostos humanos. Mensagem para o LX Dia Mundial das Comunicações Sociais, 24 jan. 2026. Disponível em: Vatican.va. Acesso em: 3 jun. 2026a.
LEÃO XIV. Magnifica humanitas: sobre a salvaguarda da pessoa humana no tempo da inteligência artificial. Cidade do Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 2026. Disponível em: Vatican.va. Acesso em: 4 jun. 2026b.
[1] Licenciado em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e Tecnólogo em Multimídia pelo Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN).



