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ARTIGO - A infância: um lugar de encontro com Jesus

há 1 dia
4 min de leitura

Por Pe. Rodrigo Paiva

Pároco da Paróquia de Santa Luzia – Natal (RN)

 

Celebrar o Dia das Crianças, no próximo 12 de outubro, é mais do que recordar uma data dedicada aos pequenos. É uma oportunidade para olhar com seriedade, ternura e responsabilidade para a infância, reconhecendo nela uma etapa decisiva da existência humana e um verdadeiro lugar de encontro com Deus. Jesus não tratou as crianças como espectadores secundários da vida religiosa. Ao contrário, colocou-as no centro do seu ensinamento: “Deixai as crianças e não as impeçais de vir a mim, porque o Reino dos Céus pertence aos que são como elas” (Mt 19,14). O gesto de Jesus rompe com toda mentalidade que considera a criança alguém que ainda não chegou a ser plenamente pessoa. Para o Evangelho, a criança possui dignidade própria, merece acolhida, cuidado e escuta e, mais ainda, torna-se sinal do próprio Reino. Por isso, o lema da Campanha da Fraternidade 2027, “Quem recebe uma criança em meu nome, a mim recebe” (Mt 18,5), não é apenas uma bela inspiração pastoral. É uma afirmação exigente: acolher uma criança é acolher o próprio Cristo.

 

A Igreja, portanto, não pode permanecer indiferente diante das condições concretas em que vivem nossas crianças. O Documento de Aparecida afirma com clareza que “a infância, hoje em dia, deve ser destinatária de uma ação prioritária da Igreja, da família e das instituições do Estado, tanto pelas possibilidades que oferece como pela vulnerabilidade a que se encontra exposta” (DAp, 438). E acrescenta algo particularmente importante para a missão evangelizadora: “a infância [...] constitui ocasião maravilhosa para a transmissão da fé” (DAp, 440). Há, portanto, uma dupla responsabilidade que não pode ser separada: cuidar da criança e ajudá-la a descobrir o amor de Deus. A evangelização não pode acontecer à margem da proteção, assim como a proteção integral não deve ignorar a dimensão espiritual da pessoa. O Estatuto da Criança e do Adolescente reconhece que meninos e meninas têm direito ao desenvolvimento “físico, mental, moral, espiritual e social” (ECA, art. 3º) e determina que família, comunidade, sociedade e poder público assegurem seus direitos “com absoluta prioridade” (ECA, art. 4º). Cuidar da infância, portanto, não é favor, concessão ou gesto de benevolência. É dever de justiça, expressão de humanidade e exigência da fé.

 

A ciência também nos ajuda a compreender a grandeza desse compromisso. Estudos desenvolvidos pelo Center on the Developing Child, da Universidade de Harvard, mostram que as experiências dos primeiros anos de vida lançam as bases para a saúde, a aprendizagem, o comportamento e o bem-estar ao longo de toda a existência. Relações estáveis, responsivas e marcadas pelo cuidado contribuem para o desenvolvimento saudável, enquanto experiências adversas e prolongadas podem produzir consequências que se estendem pela vida adulta. A infância, portanto, não é uma simples sala de espera para a vida futura. É a própria vida acontecendo em um período especialmente sensível, no qual vínculos, palavras, gestos, afetos e experiências ajudam a formar aquilo que a pessoa será. Quando uma criança é amada, respeitada, protegida e educada, estamos cuidando também do adulto que ela se tornará. Quando uma criança é violentada, negligenciada, abandonada ou exposta a situações que ferem sua dignidade, não estamos diante de um problema menor ou privado, mas de uma ferida que pode atravessar toda uma existência. A sociedade que deseja um futuro mais humano precisa aprender a cuidar do presente de suas crianças.

 

Também a fé cristã começa muito cedo, não como imposição de fórmulas, mas como experiência de confiança, pertença e amor. A primeira oração ensinada pela mãe ou pelo pai, o sinal da cruz feito antes de dormir, a mão que conduz a criança à igreja, a história bíblica contada em casa, a comunidade que a acolhe e o testemunho daqueles que vivem a fé constituem experiências que podem marcar profundamente uma vida. O Documento de Aparecida recorda que a família é “lugar e escola de comunhão” e que deve ser, juntamente com a paróquia, “o primeiro lugar para a iniciação cristã das crianças” (DAp, 302). É significativo que a Sagrada Escritura também apresente a transmissão da fé como uma responsabilidade cotidiana: “Estas palavras que hoje te ordeno estarão em teu coração. Tu as inculcarás aos teus filhos e delas falarás sentado em tua casa, andando pelo caminho, deitado e de pé” (Dt 6,6-7). A fé ensinada na infância não se reduz, portanto, à preparação para um sacramento. Ela nasce e amadurece no ambiente dos vínculos, da oração, da convivência e do testemunho. Uma criança que aprende a reconhecer Deus como Pai e Jesus como amigo e Salvador recebe uma chave para interpretar a própria existência à luz do amor.

 

É nesse horizonte que a Campanha da Fraternidade 2027 nos convida a uma verdadeira conversão pastoral. “Fraternidade e o Cuidado das Crianças” nos recorda que nenhuma criança deve ser invisível, silenciada ou descartada. A Igreja precisa perguntar não apenas o que faz pelas crianças, mas também que lugar lhes oferece em suas comunidades, como as escuta, como as protege e como cria ambientes verdadeiramente seguros para elas. Precisa fortalecer as famílias, qualificar seus agentes, acompanhar a catequese, valorizar a Infância Missionária, promover a participação das crianças na vida comunitária e assumir, com firmeza, a proteção contra toda forma de violência e abuso. Jesus nos ensina que o modo como tratamos os pequenos revela muito do modo como acolhemos o próprio Deus (cf. Mt 18,5). Por isso, cuidar das crianças é uma forma concreta de professar a fé. É também uma maneira de construir uma Igreja mais fiel ao Evangelho e uma sociedade verdadeiramente fraterna.

 

Neste Dia das Crianças, deixemos que os pequenos também nos evangelizem. Eles nos recordam a capacidade de confiar, de maravilhar-se, de acolher, de perdoar e de viver a alegria do presente. Talvez por isso Jesus tenha colocado uma criança no meio dos seus discípulos e dito: “Se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, não entrareis no Reino dos Céus” (Mt 18,3). Tornar-se como criança não significa infantilizar a fé, mas recuperar a abertura do coração diante de Deus. Que nossas famílias, escolas, comunidades e instituições sejam lugares onde cada criança possa crescer em segurança, dignidade, esperança e fé. Que nenhuma delas precise disputar o direito de ser amada. E que a Igreja, ao contemplar cada criança, saiba reconhecer nela não apenas o futuro, mas o presente do Reino, uma vida que nos é confiada e, misteriosamente, um lugar onde o próprio Jesus deseja encontrar-se conosco.

 

 
 
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