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ARTIGO - A honestidade agoniza 

  • há 13 horas
  • 3 min de leitura


Padre João Medeiros Filho

Assistente eclesiástico do Mosteiro das Filhas de Santana

 

Inconteste é a influência exercida pela mídia sobre a cultura e o comportamento humano. Isso leva a uma redobrada atenção sobre algumas desconstruções de princípios e conceitos fundamentais para o homem e a sociedade. O desprezo pelo verdadeiro chega ao limite do tolerável. O pensamento pós-moderno se insurge agressivamente contra toda e qualquer verdade, fazendo com que a humanidade não dê mais importância aos valores milenares. “Um dos maiores erros e pecados de nossos dias é a desonestidade, inclusive intelectual, fonte de outros erros e afrontas”, afirmava o Papa Francisco. A verdade vai sendo trocada por interesses e conveniências. Implantou-se o império do “politicamente correto.” Importa o que convém a alguns e não a objetividade e imparcialidade dos fatos. Afasta-se o interesse coletivo ou o bem comum e cultua-se a egolatria. Ignora-se o ensinamento de Cristo, no Sermão da Montanha: “Seja o vosso sim, sim, e o vosso não, não” (Mt 5, 37).


Tangida pela onda do relativismo, a cultura atual busca desacreditar a milenar tradição que apresenta o conhecimento sob o ângulo da unidade entre razão e objetividade, isto é, a verdade em sua conceituação filosófica e ética. Em seu lugar, entronizam-se o oportunismo e a conveniência de ocasião e da moda. Muitas são as investidas em favor da fragmentação da verdade. Contrário a qualquer projeto de veracidade, estabelece-se o reino dos sofismas, das narrativas e mentiras em prol de interesses de alguns. E sua fábrica industrial poderá ser a inteligência artificial. Cada um constrói a sua versão para proveito próprio, querendo impô-la como única e verdadeira.


Jorge Mario Bergoglio, no início de seu pontificado, denunciou a “ditadura do relativismo”, invadindo as instituições sociais, escolas, famílias e igrejas, colocando em perigo a sadia convivência entre os homens. “Sem a verdade, não haverá paz”, concluiu aquele Pontífice. E continuou: “não pode haver paz, se cada um é a medida de si mesmo, reivindicando sempre e apenas os seus próprios direitos, sem se importar com o bem e o respeito aos de outros” (Discurso ao Corpo Diplomático, acreditado junto à Santa Sé, em 2013). Acompanha-se o surgimento de várias ideias contrárias à imutabilidade da lei natural. Ideologias, como a de gênero, a desconstrução da família etc. são bastante polêmicas. Dizer que a sexualidade de cada pessoa é algo subjetivo – desconexo da objetividade do corpo – é fechar os olhos e negar o princípio antropológico-biológico da identidade. “Se não sou eu o criador ou autor da corporeidade, não posso mudá-la. Isso é falacioso e ilusório”, assim se expressara o Papa Bento XVI, quando ainda era o Cardeal Joseph Ratzinger.


Tais ideologias pretendem moldar seres humanos, a partir de uma ação orquestrada e difundida largamente. Segundo a lei natural e a doutrina cristã, Deus não concedeu ao homem o direito e poderes de mudar a essência daquilo que Ele criou. Há quem defenda como lícito reconstruir, a seu bel prazer, o corpo humano, do qual não é autor. Trata-se de um descompromisso com a verdade da lei natural, fundamento indispensável para edificar a comunidade dos homens e elaborar a lei civil. O sociólogo jesuíta Padre Fernando Bastos d´Ávila, em brilhante conferência na Academia Brasileira de Letras (da qual era membro), assim se pronunciou: “Alguém tem escritura lavrada em algum cartório de que é o dono exclusivo e absoluto da vida e do corpo?” 


Quem se proclama medida única das coisas e da Ética não consegue conviver e colaborar com o próximo e a sociedade. Infelizmente, muitos incutem e praticam a frase de Luís XIV: “L’état c’est moi”, querendo que apenas a sua vontade (ou a de seu partido) seja a lei! A negação ou o descaso da verdade (corolário da lei natural) gera uma cisão entre a liberdade dos indivíduos e o direito de outrem. É o que se assiste no Brasil de hoje. Auxiliados por Cristo, que é “o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14, 6), esforcem-se os cristãos para que seus atos edifiquem o saudável convívio entre os seres humanos e a promoção do reino da justiça e da paz. “Não vos deveis extraviar por qualquer espécie de doutrina estranha, pois é bom que o coração seja fortificado pela graça.” (Hb 13, 9).

 
 
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