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ARTIGO - A comunicação sem corpo

  • há 11 minutos
  • 3 min de leitura

Dom João Santos Cardoso

Arcebispo de Natal

 

A comunicação digital deixou de ser apenas uma ferramenta para tornar-se o principal meio de nos relacionarmos. Hoje, resolvemos quase tudo por aplicativos de mensagens: conversamos com amigos, trabalhamos, fazemos compras, pagamos contas e solucionamos problemas com empresas por meio de canais digitais de atendimento. Em muitos lares, é comum que pessoas da mesma casa conversem mais pela tela do que pessoalmente. Ganhamos rapidez e praticidade, mas será que não estamos perdendo algo essencial?


Essa é a inquietação do filósofo sul-coreano Byung-Chul Han em No Enxame. Ao afirmar que "a mídia digital furta à comunicação a tatilidade e a corporeidade", ele não critica o avanço da tecnologia. Sua preocupação é mais profunda. A comunicação humana deixa de ser um verdadeiro encontro entre pessoas para reduzir-se a uma simples troca de informações. Comunicar-se é uma experiência essencialmente corporal e vai muito além das palavras. A comunicação humana envolve o olhar, os gestos, as expressões faciais, a entonação da voz, os silêncios e toda a riqueza dos sinais não verbais que somente a presença física pode oferecer. É justamente essa dimensão relacional que torna possível o encontro autêntico com o outro. A comunicação digital, porém, empobrece essa experiência ao privilegiar a circulação de informações em detrimento da presença humana, esvaziando a profundidade e a densidade próprias das relações interpessoais.


Quando essa dimensão corporal desaparece, também muda a nossa forma de perceber o outro. Ao evitar o encontro direto, passamos gradualmente a nos relacionar mais com imagens, perfis e mensagens do que com pessoas concretas. O smartphone transforma-se num "espelho digital", reforçando uma lógica narcísica na qual estamos continuamente voltados para nós mesmos. O outro deixa de ser alguém que nos interpela, nos desafia e nos surpreende para tornar-se um objeto manipulável, que pode ser aceito, ignorado ou descartado com um simples deslizar de dedo sobre a tela. Assim, a alteridade cede lugar à lógica da seleção e do consumo, empobrecendo a experiência do encontro humano.


A comunicação digital empobrece o olhar. Mesmo as videochamadas, que prometem proximidade, não conseguem substituir o encontro presencial, pois eliminam a experiência de ver e ser verdadeiramente visto. Embora aproximem pessoas fisicamente distantes, elas não substituem a experiência de olhar nos olhos, perceber a linguagem corporal, compartilhar os silêncios e sentir a presença do outro. Como consequência, enfraquecem-se a escuta atenta, a empatia e a capacidade de acolher a singularidade de cada pessoa.


É justamente isso que Han deseja denunciar. A eficiência tecnológica tem um custo: a perda da experiência humana do encontro. Quando o corpo, o silêncio, a proximidade e a presença deixam de ocupar um lugar central na comunicação, tornam-se mais frágeis também o diálogo, a amizade, o amor e a construção de uma autêntica comunidade. Podemos estar permanentemente conectados e, ao mesmo tempo, profundamente sós.


A crítica de Han não é um convite a abandonar a tecnologia, mas a utilizá-la sem permitir que ela substitua aquilo que nos torna verdadeiramente humanos. As mensagens são úteis, facilitam a comunicação e aproximam quem está distante; os encontros, porém, permanecem insubstituíveis. Sua advertência é, antes de tudo, ética e antropológica. Uma sociedade que troca o encontro pela conexão, o rosto pela tela e a presença pela simples circulação de informações corre o risco de perder uma dimensão essencial da existência humana: a capacidade de reconhecer o outro em sua singularidade e de deixar-se transformar pelo encontro com ele. Afinal, nenhuma tecnologia é capaz de substituir plenamente a força de um abraço, a profundidade de um olhar, a eloquência de um silêncio compartilhado ou a riqueza da presença de duas pessoas que verdadeiramente se encontram.

 
 
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