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Casais, o que falta ser dito?


Por Pe. Matias Soares Pároco da Paróquia de Santo Afonso Maria de Ligório - Conjunto Mirassol - Natal


É comum que pensemos, devido à experiência pastoral, sobre o que os casais dizem, sentem e partilham nas suas relações conjugais. Com as lacerações da vida em sociedade, com seu individualismo e imediatismo sistêmicos, a estrutura familiar também se encontra em constante risco e, por isso, muitos casais estão a viver momentos de crises que precisam ser avaliadas para o bem das famílias e da sociedade, na sua totalidade. Assim como as demais construções sociais, as mesmas estão a viver uma ‘Era de cansaço’. Um tempo de esgotamentos e muitas desolações causadas pela a apresentação de valores e opções novas que, no mundo novo, são vendidas como o reino da realização última. Como ministro ordenado, acompanhando tantas situações de separações de novos e maduros casais, sinto a inquietação e me preocupa os caminhos que estão sendo trilhados por muitos casais dos nossos dias.

O vácuo em muitas uniões conjugais, nesse mundo fragmentado e competitivo, tende a gerar distanciamentos, negação do outro e, por fim, traições. A infidelidade conjugal não começa na consumação dos atos sexuais com outros parceiros. Ela começa existir quando há o abandono gradativo do amor com o qual cada um na vida matrimonial é amado e prometeu amar. O dia a dia, com suas armadilhas e tentações constantes, que não podem ser reduzidas às questões sexuais, vai gerando desgastes e indiferenças na vida conjugal. Está havendo um sufocamento do amor, que precisa ter ‘a liberdade’ como característica principal. O amor gera liberdade e é alimentado por ela. Quem ama não violenta, com palavras e atitudes, a pessoa amada. Os desequilíbrios existenciais aprofundados pela crise de sentido do humano no contemporâneo têm proporcionado desilusões e abandonos sentimentais no estilo da vida marital. As decepções chegam e a condição humana não encontra, nem busca forças para manter o vínculo, que pouco a pouco se dilui, declinando na separação.


A caminhada pastoral, no acompanhamento dos casais, tem gerado em mim a convicção de que muitos casamentos se desfazem por falta de maturidade humana dos envolvidos. Na maioria dos casos, não é a falta de amor que favorece o desfecho; mas a falta de maturidade para amar e ser amado. As pulsões e desordens biopsíquicas e espirituais, com histórias marcadas por feridas e desencontros pessoais e sociais, são levadas para a vida matrimonial e precisam ser tratadas, com ‘acolhimento e cuidado para que haja integração’. Parece estranho; contudo, é mais comum do que se pensa. O amor é meio de aceitação do outro; mas também via de harmonização consigo, com a própria pessoa. O amor exige integração antropológica e vontade de viver suas formas diversificadas nas várias fases da vida. Em cada tempo da nossa história o amor vai ganhando corpo e necessidades peculiares. O jovem casal tem um modo próprio de amar, que chegada a velhice, tende a ser assumido por outro comportamento. Cada casal deve descobrir as novas formas e adaptações. O que podemos constatar é que ninguém vive sem amar e ser amado. Caso isso aconteça, o vazio será a confirmação e a fonte da angústia existencial.


Diante destes dramas, seria interessante que os casais assumissem o método de dizer um ao outro, o que ainda não foi dito. Na trajetória conjugal é muito comum ser dito o mais do mesmo. Mas como seria importante que os mesmos reaprendessem a dizer o que ainda não foi vivido na experiência conjugal. O humano, com sua subjetividade, pode se reinventar sempre, inclusive no modo de viver o “amor, como se fosse a primeira vez”. Há a chamada de atenção para que os mesmos façam memória de como o amor foi surgindo e como ele pode ser regado em suas vidas. O que não ajuda nessa construção, precisa ser deixado pelo caminho. Lançar-se em novas relações, necessariamente os leva a abandonar laços afetivos e biológicos, que terão que levar dramas e frustrações às vidas de outros envolvidos. Essa aposta na relação que perdura e confirma a aliança feita, em momentos de encantamento e felicidade, pode ser aprimorada e dinamizada com elementos que ampliam o sentido do amor. Aqui, podemos chamar ao cenário as orientações dadas pelo apóstolo Paulo na sua primeira carta aos Coríntios (13, 1-13). Como a família é base celular de toda e qualquer sociedade, o que o apóstolo ensinou aqueles cristãos, serve para os que estão encontrando dificuldades nas relações, também nos nossos dias.


O que falta ser dito, desta forma, é o que cada um pode testemunhar para que a vida conjugal continue a ser a realização do projeto de Deus. Para isso, são necessárias renúncias a fim de que o bem do outro seja caminho para a felicidade da família integralmente. No mundo hipermoderno, com essa velocidade e manipulação das subjetividades no tempo, já não existe lugar para ordenamentos duradouros e consistentes. As palavras são tragadas pelas mensagens instantâneas, que, sem conteúdo, tornam as relações fomentadas pelo que é superficial e efêmero. Os sinais desta cultura estão a bater muito fortemente em tudo o que é sinal de ‘instituído e instituição’. A vida matrimonial, que possui essa marca da tradição cristã, tem tido muitas dificuldades de manter os seus princípios diante de movimentos da história que estão a desconstruir essas raízes da sociedade e moralidade no ocidente.


Por isso, a conversão pastoral da Igreja tende a aprimorar e tornar mais personalizado o próprio estilo de evangelizar. O que é fundante já está posto no evangelho, que é uma Pessoa, Jesus Cristo. A partir Dele, a hermenêutica e a aplicação do que está posto na Sagrada Escritura, a Tradição Viva da Igreja, que animada pela ação do Espírito Santo, canaliza a Revelação Divina pelos fenômenos da história, e o magistério eclesiástico, que tem a missão de interpretar autenticamente essas bases para santificação de todos os que fazem parte do povo de Deus, os casais podem encontrar novas formas de viver e enfrentar os desafios existentes para que a felicidade conjugal possa continuar a ser o sustentáculo da vida em sociedade e da própria Igreja. Essa missão de cuidar e promover a beleza e a dignidade das famílias, a partir dos casais, cabe a todos nós. Assim o seja!

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