ARTIGO - Sobreviver e Viver
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Dom João Santos Cardoso
Arcebispo de Natal
Em um diálogo com um amigo, ele me dizia que sobrevivia bem: tinha um trabalho, conseguia seguir em frente, cumpria seus deveres, mantinha a rotina e dispunha de boas relações, de boas amizades … e, ainda assim, sentia que lhe faltava algo para viver.
Passei dias refletindo sobre essa distinção entre sobreviver e viver. Aquela partilha, marcada por sinceridade, evidencia uma experiência comum, porém muitas vezes silenciada: é possível cumprir a rotina e, ainda assim, sentir que falta o essencial, a razão de fundo pela qual vale a pena viver e morrer. Trata-se da questão do sentido da vida, que não é um problema teórico, mas se impõe como uma experiência existencial. Ela ultrapassa o campo das satisfações materiais e se insere no horizonte mais profundo da existência, dos valores, da ética e do mistério. Por isso, mesmo em uma vida aparentemente organizada, pode surgir uma espécie de “exílio interior”, quando os acontecimentos do cotidiano deixam de convergir para uma direção maior.
Tempos depois, ele me enviou um aforisma de Søren Kierkegaard, no qual afirma: “o que realmente sinto falta é de ter clareza mental do que devo fazer [...] o segredo é encontrar uma verdade que seja verdadeira para mim, encontrar a ideia segundo a qual eu possa viver e morrer” (Diários, 1836). Então, a distinção tornou-se ainda mais clara: quem apenas sobrevive limita-se a cumprir a rotina, tende a se acomodar e não se inquieta; quem vive, busca o sentido da existência, assume o caminho e não foge. Essa busca conduz ao aprofundamento da própria vida e revela uma autêntica vitalidade espiritual. Contudo, ela não se resolve apenas pela razão, nem começa com respostas prontas, mas com a coragem de permanecer aberto, sem fugir da própria busca. Aos poucos, vai-se percebendo que a razão para viver não se reduz a uma ideia abstrata, mas se define no encontro com algo ou com Alguém que dá unidade, direção e sentido a tudo o mais.
Há quem intua o caminho, ainda que não o reconheça plenamente, e se depare com o medo, por estar diante de algo verdadeiro e decisivo que exige resposta. Há também quem reconhece que, talvez, já esteja pronto, mas teme “a colheita”. Essa percepção revela que, muitas vezes, o problema não está na ausência de caminho, mas na resistência em percorrê-lo. O medo, nesse caso, não indica vazio, nem está propriamente no caminho, mas naquilo que ele exige de nós.
Ao reconhecermos que a busca de sentido “toca em Deus e no que Ele quer de nós”, torna-se evidente que há uma direção. Mesmo sem clareza plena, existe uma intuição que orienta o caminho. É justamente nesse momento que a fé se torna essencial, pois nos permite avançar mesmo sem possuir toda a evidência. Compreendemos, então, que a clareza não antecede o caminho; ela amadurece no próprio caminhar.
Diante do medo, torna-se fundamental distinguir entre prudência e adiamento. É legítimo não forçar respostas prematuras; contudo, é necessário discernir se a espera não encobre, de forma sutil, o receio de assumir aquilo que já foi intuído. Nesse sentido, o medo pode ser compreendido não como ausência de sentido, mas como sinal de sua proximidade e de sua exigência.
O sentido da vida também depende da atitude com a qual nos colocamos diante do mundo. Viver plenamente consiste em entrar em harmonia com a realidade, não de forma passiva, mas como adesão consciente a um mistério que nos envolve e nos remete a Deus. Assim, a passagem do “sobreviver” para o “viver” não ocorre por mudanças externas, mas por uma transformação interior. É o momento em que a vida deixa de ser mera sucessão de acontecimentos e se torna resposta a um chamado, que se manifesta concretamente nas experiências, nas intuições e nas inquietações que atravessam a existência. Por isso, não é necessário esperar uma compreensão total para agir. O essencial é dar o passo possível, sem recusar aquilo que já se tornou visível.
Em um contexto marcado pela eficiência e pela superficialidade, essa distinção torna-se ainda mais urgente. Não basta sobreviver; é preciso viver com sentido, integrar a vida em uma direção e responder ao mistério que habita em nosso coração. No fundo, viver é acolher a inquietação como graça, reconhecer nela um chamado de Deus e ter a coragem de avançar, mesmo sem todas as respostas, confiando que Aquele que iniciou a obra a conduzirá à plenitude.



