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ARTIGO - Quando uma mulher anuncia a vida, o Evangelho ressuscita no meio do povo

  • há 1 hora
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Ir. Vilma Lúcia de Oliveira, FDC

 

No dia 8 de março, quando o mundo celebra a mulher, a Igreja é chamada a ir além das homenagens e fazer memória agradecida. Recordar mulheres que, ao longo da história, sustentaram a fé, a educação e a esperança do povo de Deus. Algumas aparecem nas páginas da Bíblia; outras, nas páginas da história. Muitas, porém, nunca tiveram seus nomes escritos — mas estão gravadas no coração da Igreja.


A Sagrada Escritura nos mostra que Deus sempre confiou às mulheres missões decisivas. Maria Madalena foi a primeira testemunha da Ressurreição. A ela o Ressuscitado confiou a palavra mais importante da fé cristã: anunciar que a vida venceu a morte. Antes que qualquer apóstolo pregasse, foi uma mulher que correu para dizer: “Ele vive”. Desde então, a história da fé é atravessada por mulheres que anunciam com a palavra e com a vida.


Outras mulheres bíblicas nos ajudam a compreender esse anúncio vivido no cotidiano. Ana, mulher da espera e da oração perseverante, ensina que Deus escuta o clamor silencioso. Isabel, cheia do Espírito Santo, reconhece a presença de Deus antes mesmo que ela seja proclamada em palavras. São mulheres que revelam uma fé enraizada na escuta, na fidelidade e na esperança.


No centro dessa história está Maria de Nazaré, a Senhora da Apresentação, Padroeira da Arquidiocese de Natal. Maria oferece sua vida a Deus desde cedo e ensina que a grandeza da mulher está na disponibilidade e no serviço. Ela não ocupa espaços de poder, mas sustenta a fé com presença fiel. Guarda, medita, acompanha e permanece. Em Maria, aprendemos que o anúncio do Evangelho começa no coração que se abre à vontade de Deus.

Esse mesmo “sim” atravessa os séculos e ganha rosto no chão potiguar. Clara Camarão, mulher indígena, forte e determinada, defendeu seu povo, sua terra e sua dignidade num tempo de conflitos e violências. Sua história nos lembra as mulheres bíblicas que protegeram a vida com coragem, mesmo quando tudo parecia perdido.


No campo da educação e da palavra, o Rio Grande do Norte foi abençoado com mulheres que fizeram da inteligência um verdadeiro serviço ao Reino. Nísia Floresta ousou ensinar e escrever nos jornais quando a imprensa ainda engatinhava e a voz feminina quase não tinha espaço público. Num tempo em que educar mulheres era visto como ameaça, ela fez da educação um gesto de libertação e da palavra escrita um ato de coragem.  Isabel Gondim seguiu esse caminho, formando gerações, escrevendo a história do nosso Estado e cuidando da memória do povo, como quem guarda um tesouro precioso. E Auta de Souza, com sua poesia nascida da dor, transformou sofrimento em oração. Viveu pouco, sofreu muito, mas deixou versos que até hoje consolam, elevam a alma e revelam uma fé profunda e silenciosa.


Mas a fé do nosso povo não se construiu apenas nos livros. Ela também nasceu na roça, na sala improvisada, no rádio ligado. Durante décadas, no interior do Rio Grande do Norte, as monitoras das escolas rurais, apoiadas pela Rádio Rural, foram verdadeiras missionárias da educação. Onde havia um rádio, havia uma escola. Onde havia uma mulher ensinando, havia futuro. Todas eram voluntárias. Alfabetizaram, orientaram, sustentaram sonhos. Cantaram Magnificat onde reina seca. Fizeram Igreja sem saber que faziam teologia.


Nesse mesmo caminho caminham tantas catequistas anônimas, como Ana Elizabeth, em Canguaretama, e tantas outras mulheres que doaram tempo, voz e coração para formar crianças, jovens e adultos na fé. Elas nunca subiram a um púlpito, mas anunciaram o Evangelho com paciência, fidelidade e amor. Quando faltavam padres, estruturas ou recursos, eram elas que mantinham viva a fé nas comunidades.


A história da Igreja potiguar também é tecida pelas mãos das religiosas, como Irmã Maria José, de Ceará-Mirim, e as Irmãs Vigárias de Nísia Floresta, São Gonçalo do Amarante e Taipu. Mulheres consagradas que educaram, cuidaram e permaneceram, fazendo da vida um dom silencioso e fecundo. Em escolas, comunidades e paróquias, anunciaram o Evangelho com a presença fiel e o serviço cotidiano.


E como sinal luminoso dessa entrega, lembramos a Beata Lindalva, mártir da caridade. Mulher simples, consagrada, fiel até o fim. Sua vida nos ensina que amar até as últimas consequências é a forma mais radical de seguir Jesus.


Assim como Maria Madalena anunciou a vida nova e Maria da Apresentação serviu em silêncio, incontáveis mulheres, nomeadas ou não, semearam fé e esperança no coração potiguar. Em cada gesto, palavra ou cuidado, brilham a coragem, o serviço e a presença essencial da mulher na alma da Igreja.  Quando uma mulher anuncia a vida com a palavra e com a fidelidade do dia a dia, o Evangelho continua ressuscitando no meio do povo.

 

 

 

 
 
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