ARTIGO - O Catecumenato no Sínodo
- pascom9
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Pe. Matias Soares
Pároco da paróquia de Santo Afonso
Natal-RN
Capelão da UFRN
Na última Assembléia Arquidiocesana de Pastoral, uma das falas reiteradas pelo nosso assessor, tratando dos desafios da pastoral urbana, foi a de que a nossa ação evangelizadora precisa acontecer de modo qualificado. Temos que rezar e estudar, com o coração e a mente dóceis à ação do Espírito Santo para que possamos fazer o ‘discernimento pastoral’ das nossas ações eclesiais. Observando os sinais que são propostos, ainda não conseguimos perceber o que de fato queremos para dar um “rosto pastoral” ao corpo das nossas práticas pastorais arquidiocesanas. Estamos caindo na tentação de massificar um projeto de Igreja que toma distância das direções dadas pelo Concílio Vaticano II. O Papa Leão XIV deixou, mais uma vez claro, em continuidade com os seus predecessores, de que é ele - O Concílio - a bússola do agir pastoral da Igreja para este nosso tempo. Basta que tenhamos presente os temas da sinodalidade, o da missão da Igreja no mundo moderno - evangelização e diálogo - e da liturgia, que entraram nas mesas de debate do Consistório.
A nossa Arquidiocese, principalmente a partir do Movimento de Natal, tem uma fisionomia pastoral marcante e marcada pelo evento conciliar. Essa história não pode ser desconfigurada. Os fenômenos que massificam projetos, sem diocesaneidade, não favorecem a uma pastoral de conjunto da qual, quiça, temos um hiato. Os espiritualismos pré-modernos nos aprisionam nas redes digitais que têm sido usadas, muito eficazmente, para uma alucinante “teologia do domínio”. Essa impostação toma distâcia e é indiferente aos ensinamentos conciliares. Basta que tenhamos clareza dos fundamentos que nos são postos pelo Concílio, que, por sinal, teremos a oportunidade de receber mais catequeses sobre o seu significado e atualização, dadas pelo Sumo Pontífice. Sem um aprofundamento sério e permanente das suas linhas mestras, não conseguiremos avançar na qualidade hodierna da nossa pastoral. Esta, por sinal, carente de conceituação e compreensão, já que perdemos o ponto de equilíbrio, com a continua aposta no sacramentalismo e nos devocionismos emotivistas, que alienam e aprofundam as crises da genuína catolicidade.
A aposta nessas possibilidades é um claro sintoma de que não temos clareza eclesial do que queremos, enquanto membros do povo de Deus. Aqui há, também, um sintoma do nosso ‘mundanismo espiritual’: A visibilidade e a necessidade de manipulação das massas. Há o cheiro da autorreferencialidade. As ‘comunidades eclesiais missionárias’ são abafadas. Aliás, sobre elas pouco se fala. Não queremos conversão missionária; mas números, sem rosto e sem nome. Investimos em muita emoção e pouca transformação das estruturas. Buscamos a quantidade mais do que a qualidade. Não queremos fermento na massa; e sim massa no fermento, que não gera transformação do todo, a partir do particular. Nisso há uma negação da nossa história, sempre marcada pelo protagonismo dos leigos, religiosos e demais lideranças. O Movimento de Natal investiu fortemente nesse dinamismo e na intensidade, qualificada e quantificada, dos fiéis. Por isso, as escolas radiofônicas, as paroquiais e os encontros permanentes entre ministros ordenados e demais sujeitos eclesiais. Sem formação permanente e liderança, infelizmente, não poderemos sonhar com a atualização das linhas pastorais daquele Movimento Eclesial, que aconteceu em nossa Igreja Local.
Nesse caminho que estamos vivendo, que é o do Sínodo Arquidiocesano, além de tantas possibilidades que poderão ser ventiladas, está a urgência de acolhermos uma das requisições do Concílio, que é a da retomada do Catecumenato, prática pastoral da formação para os convertidos da Igreja Primitiva (cf. LG 14; SC 64-66; AD Gentes 14 e CD 14). Com o RICA - Rito de Iniciação à Catequese de Adultos - “os adultos que, iluminados pelo Espírito Santo, ouviram o anúncio do mistério de Cristo e, conscientes e livres, procuram o Deus vivo e encetam o caminho da fé e da conversão. Por meio dele, serão fortalecidos espiritualmente e preparados para uma frutuosa recepção dos sacramentos no tempo oportuno” (cf. Introdução ao Rito, 1). Temos percebido uma procura de adultos, que estão a buscar as nossas comunidades paroquiais, com o desejo de serem iniciados à fé cristã. O problema que si nos é posto é que as paróquias não estão preparadas pastoralmente para um acolhimento que seja qualificado. Desta forma, faz-se mister, que atendamos aos apelos da emergente “catequese renovada”, que tem dentre um dos seus pilares o processo catecumenal.
O que a nossa Igreja Particular é chamada a trilhar, com foco numa dinâmica da ‘diocesaneidade’, é o da atenção à eclesiologia conciliar, com suas direções e o seu reluzir nos ensinamentos mais recentes do magistério, com uma tentativa de aceitação das linhas pastorais, muito lucidamente deixadas pelo Papa Francisco, que falou do Concílio como “a atualização contemporânea dos ensinamentos do Evangelho”. Numa cultura que toma cada vez mais distância dos valores cristãos e, por isso, qualificada por alguns, como pós-cristã, o que possibilitou a qualificação do ‘ser cristão’, em tempos primitivos, pode ser vivido e testemunhado em nossas comunidades para um autêntico e lúcido fortalecimento da existência cristã de todos os que desejarem seguir serenamente a pessoa de Jesus Cristo, no hoje da nossa história. Assim o seja!








