ARTIGO - Deus expulso do Paraiso
- pascom9
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Pe. Matias Soares
Pároco da Paróquia de Santo Afonso Maria de Ligório, Conj. Mirassol, Natal
Capelão da UFRN
No livro do Gênesis é dito que o homem foi expulso do paraíso por causa da sua desobediência (cf. Gn 3, 23-24). Essa imagem do Éden como lugar da criação e da harmonia, que existiam antes do pecado da humanidade, é algo fascinante. Somos muito bem colocados neste cenário, no qual todos desejamos estar, já que as nossas ações sempre terão por finalidade a felicidade. Essa categoria religiosa diz mais da nossa humanidade do que conseguíamos dizer pela pura racionalidade. Através dela, podemos nos situar como seres abertos ao transcendente, necessitados de absoluto e curiosos pelo que nos aguarda além do natural. Temos aqui a categorização do sobrenatural, que está fincado no natural. É uma descrição antropológica que o pensamento contemporâneo tentou descaracterizar, tendo pela frente o “drama do humanismo ateu” (cf. Henri de Lubac), que propõe uma via negativa da condição humana ao transcendente.
Teologicamente, a celebração do mistério da Encarnação (cf. Lc 1,67-79; 21-14; Jo 1,1-18) é a confirmação que o Emanuel de fato está conosco. A sua historicidade é o qualificador do tempo, que passa a ser lugar de salvação. Os sinais podem ser vistos e ouvidos (cf. Lc 4,18-19). Jesus sempre precisa ser acolhido. Podemos seguir o exemplo de Isabel (cf. Lc 1,39-45), que reconheceu que Maria é a mãe do Senhor. Com Maria, o acolhimento do Filho. Sua presença rejubila e enaltece a história da humanidade, especialmente a dos mais pobres e marginalizados. Como cristãos, temos uma grandíssima responsabilidade, que passa pelo testemunho qualificado pela fé, que promove a conversão ao projeto do Reino de Deus (cf. Mc 1,14-15). A Sua presença no mundo é atualizada pelo nosso agir, que tem o seu fundamento no Ser Cristão; pois do “ser segue o agir”. Uma existência reluzente da vida de Cristo, como sinal da nossa Sequela Christi. O nosso lugar teológico é o mundo, com seu desenvolvimento próprio marcado por alegrias e esperanças (cf. Gaudium et Spes, 1).
O filósofo Friedrich Nietzsche argutamente percebeu que o homem moderno tomou distância de Deus; O matou. Segundo ele “o homem louco se lançou para o meio deles e trespassou-os com seu olhar. ‘Para onde foi Deus?’, gritou ele, ‘já lhes direi! Nós os matamos – vocês e eu. Somos todos seus assassinos! Mas como fizemos isso? Como conseguimos beber inteiramente o mar? Quem nos deu a esponja para apagar o horizonte? Que fizemos nós ao desatar a terra do seu sol? Para onde se move ela agora? Para onde nos movemos nós? Para longe de todos os sóis? Não caímos continuamente? Para trás, para os lados, para frente, em todas as direções? Existem ainda ‘em cima’ e ‘embaixo’? Não vagamos como que através de um nada infinito? Não sentimos na pele o sopro do vácuo? Não se tornou ele mais frio? Não anoitece eternamente? Não temos que acender lanternas de manhã? Não ouvimos o barulho dos coveiros a enterrar Deus? Não sentimos o cheiro da putrefação divina? – também os deuses apodrecem! Deus está morto! Deus continua morto! E nós O matamos! (cf. A gaia ciência, Aforismo 125). A questão que si nos é posta é: Que homem louco seria esse apresentado pelo filósofo? Assim como tivemos uma modernidade tardia que viveu as situações de duas grandes guerras e, em nossos tempos, as constatações de várias guerras em pedaços, que estão ganhando corpo e contextos planetários, talvez possamos contemplar que a mesma humanidade que expulsa Deus da sua história esteja, mais uma vez, também matando o ser humano, em nome da economia que exclui, como denunciava o saudoso Papa Francisco (cf. Evangelii Gaudium, 53), e do poder hegemônico e totalitário.
Um exímio interprete desta fisionomia teológica do homem moderno e suas construções culturais é Romano Guardini. Segundo ele, “na sensibilidade de Nietzsche, Deus é experimentado como aquele que expulsa o homem de seu ‘espaço existencial’, o despoja da plenitude da sua humanidade, e lhe nega a honra da sua existência. Daqui provém o ‘ateísmo como postulado’: ‘Se eu devo ser, ele não deve ser. Mas eu devo ser, e por isso ele não pode ser!’. Quão elementar e vulnerável é este estado da alma, revela-o a mensagem de Nietzsche: ‘Deus morreu’. Não diz: não há Deus, mas: Ele morreu! E atrás desta, a frase mais profunda: “Matei-O. Fui vencedor do combate com o grande Outro” (cf. R. Guardini, “O mundo e a Pessoa”, pág. 41-42). Essa categoria de ‘espaço existencial’ é relevante ao que nos propomos. A expulsão de Deus da cultura contemporânea é a metáfora condizente e à qual proponho-me, com a ideia da ‘expulsão de Deus do paraíso’. O ser humano abandona a centralidade de Deus do seu ‘espaço existencial’. A sua condição humana agora é ‘autônoma’. Nela, não há lugar para o Deus anunciado e testemunhado por Jesus Cristo. Aquele de Quem precisamos fazer constantemente a “Memória da sua Paixão” (cf. Johann Baptist Metz). Essa conquista da racionalidade moderna, já iniciada pela Reforma Protestante, com seu fideísmo clássico, tomou formas radicais na pós-modernidade (cf. Martinho Lutero. “Da Liberdade do Cristão”, introdução, pág. 12-13). Nesta também têm encontrado morada os fundamentalismos religiosos e as formas distópicas do Cristianismo “puro e simples”, que oferecem espiritualismos carentes da “Essência do Cristianismo”. Nisto também podemos encontrar uma forma patente de expulsão de Deus do paraíso; ou seja, do “espaço existencial” que deveria ser ocupado por Ele, através do ser e do agir Cristão radicados na “Alegria do Evangelho”.
Desta forma, cabe-nos uma revisão profunda da nossa missão no mundo de hoje, com suas inovações tecnológicas e problemáticas novas, pois, se expulsamos Deus do paraíso, que pode ser tanto o mundo, quanto a Igreja, o que nos resta? Estamos deveras numa Era pós-cristã e, consequentemente, sem necessidades emergentes de cristandades. O Papa Francisco tinha clareza desta ordem sistêmica e, por isso, tentou nos relançar ao que é Norma universal e concreta do Cristianismo. Urge um reencantamento com o Evangelho. Estamos iludidos pelo secundário. Muitas “Alices em países de maravilhas”. Basta um pouco de silêncio e observação. Sejamos cristãos desejosos de santidade, com pequenas atitudes e testemunhos que vão fazendo a diferença. Seremos, num futuro, quiçá, não tão distante, uma “minoria abraâmica” (cf. Dom Helder Câmara). Na Igreja, como instituição, talvez já seja esta a realidade! O caminho no contemporâneo é da “mística cristã”, com suas subjetividades, como já profetizara Karl Rahner. Peçamos a luz do Espírito Santo para que o profundo amor ao Evangelho de Nosso Senhor, nos torne capazes de acolhê-Lo em nossas vidas para que O testemunhemos em nossos tempos. Assim o seja!








