História dos primeiros Mártires do Brasil

Por Pe. José Pereira Neto
Arquidiocese de Natal

 

Em 1633, os holandeses chegaram ao Rio Grande (nome primitivo do estado do Rio Grande do Norte), com o desejo de posse da economia, bem como, a grande produção agrícola, sobretudo, do cultivo da cana de açúcar. Os flamengos (nome usado para identificar os invasores), para lutar, contaram com a ajuda dos índios Tapuias e Potiguares. 


Antes de percorremos a história, gostaria de relatar o porquê da ajuda indígena, como força para a invasão holandesa. Os índios que habitavam a região se sentiam feridos, de forma invasiva, pelas imposições portuguesas, ferindo a sua liberdade, cultura e culto a divindade, que, por vezes, tem uma forma diversa da qual era imposta pelos colonos. Na primeira oportunidade que tiveram de dar uma resposta aos colonizadores, deram se unindo ao projeto dos holandeses de retirar os portugueses do território local. No fundo, mais uma vez, os nossos índios foram usados pelos poderes externos, para tentar uma suposta dominação.


As investidas tomaram forma. No Rio Grande, existiam dois grandes centros econômicos, que, na época, aconteciam em dois engenhos: o do Potengi e o do Cunhaú.  Neles, havia a criação do gado, que abastecia toda a região,  o cultivo do milho e da mandioca. O que mais chamava a atenção dos flamengos, era o do Vale do Cunhaú, irrigado por um rio perene com o mesmo nome, com um lindo campo verdejante de canaviais, sendo o maior produtor de cana de açúcar do estado, produzindo cerca de 6 a 7 mil arroubas. 


A primeira investida de dominação dos holandeses se deu no ano 1634. Onze anos depois, em 1645, a vida do Vale do Cunhaú parecia voltar tudo à normalidade. Em volta da Capela de Nossa Senhora das Candeias, residia em torno de 70 pessoas, dedicadas aos trabalhos da lavoura e moagem da cana. Sinais de tempestades se davam no horizonte. Em Pernambuco, as investidas holandesas se instauravam, mas, na capitania do Rio Grande tudo parecia tranquilo. Repentinamente, o clima tornou-se tenso com a chegada de Jacó Rabi, a serviço da coroa holandesa, em 15 de julho de 1645. Ele, juntamente com os índios Tapuias e Potiguares, trazia uma mensagem do Supremo Conselho Holandês de Recife, gerando nos nativos, suspeitas e medo do que pudesse acontecer. 


No outro dia, 16 de julho, domingo e festa de Nossa Senhora do Carmo, aproveitando que na hora da missa se reuniriam os colonos e o pároco, Padre André de Soveral, Jacó Rabi iria ser o portador de uma mensagem do Supremo Conselho Holandês de Recife aos moradores do Cunhaú. 


Sem ter mais o que fazer para garantir a dominação, a última investida, agora, seria pela religião; a imposição seria a profissão de fé ao Calvinismo, tornando, assim, mais fácil a posse da terra, dos benefícios do poder e da economia.  


A hora da missa chegou, os fiéis se dirigiam à capelinha, motivados apenas pelo desejo de cumprir os deveres cristãos, de participar da missa dominical; não carregavam armas, a não ser o desejo de se encontrar com Jesus na Santíssima Eucaristia. O padre André começou a missa e, na hora da elevação do cálice, erguendo o corpo de Jesus, a um sinal de Jacó, as portas se fecharam e começou, então, ao massacre do Cunhaú.  Grande terror tomava conta naquele momento. Os índios canibais, convocados pelos holandeses, sem nenhuma reserva, começaram o massacre pelo padre André de Soveral, e não privaram em nada sua condição de clérigo, tamanha crueldade, fazendo-os em pedaços. Mesmo assim, ele convidava a comunidade a rezar o ofício da agonia, se entregando a Jesus, pedindo perdão pelos seus pecados e perdoando a quem os tirava a vida.  Morreram por Jesus, pela Igreja e pela pátria.


As investidas continuavam. Em Natal, o Padre Ambrósio Francisco Ferro (pároco de Natal), foi levado com outro grupo de fiéis para o Forte dos Reis Magos (fortaleza utilizada para se proteger da guerra), pelo mesmo mandatário holandês - Jacob Rabi, com a mesma motivação do contexto de Cunhaú. Foram dias de grande tensão, tendo em vista o que tinha acontecido no Vale do Cunhaú. 


O Padre Ambrósio e os seus fiéis deixaram o Forte e, chegando ao Campo de Uruaçu, em torno de 150 pessoas, foram massacradas, a mandado do governo holandês, em 3 de outubro de 1645. 
   

Cenas de crueldades se davam no campo. Um cronista da época relata:
“Começaram... a darão atrozes tormentos aos homens, e tão desumanos, que já muitos dos que o padeciam, tomavam por mercê a morte; mas usaram os holandeses da última crueldade, dilatando a pena, e depois de cansados de darem tão aspérrimos tormentos aos homens, os entregaram aos Tapuias e Potiguares, que, ainda vivos os foram fazendo em pedaços, e nos corpos fizeram tais anatomias que são incríveis; arrancando a uns os olhos e tirando a outros as línguas e cortando as partes verendas...” (SANTIAGO, p. 346).


Em meio às controvérsias dos historiadores, sobre o acontecimento ou não do martírio, há um conjunto de fatos que atestam um verdadeiro martírio no sentido cristão: a atenção dos perseguidores em matar um grupo de católicos, penitentes e sem nenhuma defesa, durante a missa (Cunhaú), não houve ação de defesa das vítimas, entregando-se livremente ao sacrifício, no momento último recitaram orações de súplicas de misericórdia a Deus para eles e seus agressores.


Por fim, algo semelhante aconteceu com o Padre Ambrósio, que, vendo o testemunho do seu irmão no sacerdócio, o Padre André, também motivou seu grupo a se entregar pela causa do Evangelho, destacando-se desse grupo, o leigo Mateus Moreira, que na hora da sua morte, quando o coração lhe era arrancado pelas costas, gritou seu amor a Jesus na Hóstia Santa: ‘Louvado seja o Santíssimo Sacramento’. Esta foi a fundamentação que garantiu o reconhecimento de santidade dos mártires de Cunhaú e Uruaçu.
 

O caminho do Martírio

Capela de Nossa Senhora das Candeias, no Engenho Cunhaú

Cunhau Arte Pe Eladio L'Eraistre Monteiro 1999 (2).jpg

É o local sagrado onde o martírio do Santo André de Soveral (sacerdote), São Domingos de Carvalho e dos fiéis reunidos na capela para a Santa Missa dominical, em 16 de julho de 1645. O acesso se dá pela rodovia federal BR 101. Ao chegar a Canguaretama, primeira cidade do Rio Grande do Norte para os que vêm da Paraíba, pega se a rodovia estadual RN 269, sentido a cidade de Pedro Velho. Seguidos três quilômetros, entra-se à esquerda, numa via pavimentada que vai até a Capela do Martírio. É construção datada de 1604, considerada a Igreja católica mais antiga do Estado, construída em área rural. Nas proximidades, encontramos o Santuário da Chama de Amor e dos Mártires de Cunhaú, maior santuário mariano do estado.

Monumento aos Mártires de Uruaçu

Uruaçu Arte Pe Eladio L'Eraistre Monteiro 1999 (4).jpg

É o local do martírio do Santo Ambrósio Francisco Ferro (sacerdote), São Mateus Moreira, leigo e seus companheiros, no dia 3 de outubro de 1645. Os mártires foram massacrados ao ar livre, num lugar deserto, longe da cidade. Logo após a beatificação, foi construído, no mesmo local, um monumento aos mártires de Uruaçu e Cunhaú, sendo um espaço para grandes celebrações. 


Ao chegar a Natal, toma-se a ponte de Igapó sobre o rio Potengi e se segue pela rodovia estadual RN 160 até a cidade de São Gonçalo do Amarante. Na mesma estrada, poucos quilômetros depois  atravessa-se a ponte São Gonçalo-Macaíba, toma-se à esquerda, numa estrada asfaltada, com a placa indicativa "Monumento de Uruaçu" até o local do martírio. 


*Texto publicado na revista A Ordem – especial Mártires, em outubro/2017