I – O MUNDO
ATUAL: HÁ ESPAÇO PARA ACOLHER?
Como praticar a acolhida num mundo que parece cada vez mais egoísta,
individualista, violento? O individualismo exacerbado forjado pela urbanidade
crescente é o acionador de comportamentos fechados, onde as pessoas
vão se tornando ilhas, isoladas, criando cães, gatos e
outros animais, como se estes estivessem mais sensíveis à
escuta e à amizade dos homens e mulheres, do que os próprios
seres humanos. Vivemos numa sociedade marcada pela não-escuta.
E isto gera violência. O ser humano que não tem o direito
de comunicar (ser acolhido) respeitado, não é reconhecido
como pessoa, acaba manifestando a insatisfação e isso
se traduz através de explosões emocionais: em casa, no
trabalho, na revolta inexplicável com os outros, na vontade de
fazer qualquer coisa agressiva para dizer “eu estou aqui, leve-me
em consideração”.
Infelizmente, alguns meios de comunicação estão
transformando as pessoas em criaturas frias. Quantos casos conhecemos
de adolescentes e jovens que nem têm mais tempo para conversar
com os pais, porque estão “teclando” com os amigos
virtuais ou concentrados nos jogos eletrônicos. No caso dos jogos,
o perigo: o importante é “matar” o adversário.
E alguém ainda diz: “é melhor meu filho está
diante do computador ou da televisão, do que está por
aí, correndo risco, conversando com os amigos, no meio da rua”.
Pessoas deliram e se deslumbram perante a capacidade de máquinas
eletrônicas, digitalizadas, como se estivessem diante de deuses
que merecem reverência. Na verdade, não são os meios
de comunicação que são maléficos. Eles devem
ser úteis ferramentas no trabalho de evangelização,
de troca de boas informações. O importante é não
se deixar dominar pelas máquinas.
Em relação ao aspecto religioso, o Pe. Jerônimo
Gasques, em seu livro Pastoral da Acolhida – rumo ao novo milênio,
alerta: “Hoje se fala em globalização ou mundialização.
Fala-se em teoria de qualidade total, inteligência emocional,
inteligência pessoal. Fenômenos e mais fenômenos.
E nós, na Igreja e na pastoral? Estamos ainda capinando com a
enxada, ainda usamos foice e facão...”. O Pe. Jerônimo
alerta para os argumentos que as tantas seitas utilizam para “acolher”
novos fiéis, inclusive católicos (ou ex-católicos).
Daí, vem as novas tendências religiosas, inclusive se utilizando
do “mágico” para resolver problemas imediatos. Segundo
o Pe. Jerônimo, “o verdadeiro desafio da modernidade para
a prática do acolhimento é: qual é o vazio que
essas novas tendências religiosas estão preenchendo?”
I – JESUS CRISTO:
O BOM ACOLHEDOR
Antes do nascimento de Jesus, sua mãe, Maria, nos dá o
exemplo. Ela soube acolher em si a Palavra de Deus e dá-la ao
mundo, na pessoa de seu Filho, Jesus Cristo. Outra atitude singular
é a visita de Maria a Isabel. Maria que acolhe, em seu coração,
e põe em prática tão bonito gesto de solidariedade
com a prima, já em idade avançada, grávida. Isabel
recebe a prima Maria e acolhe sua disponibilidade em ajuda-la.
Jesus, por sua vez, com atitudes simples e verdadeiras, soube nos ensinar
como sermos bons acolhedores. São Paulo, na carta aos Romanos,
lembra: “Acolhei-vos, pois, uns aos outros, como o Cristo vos
acolheu, para a glória de Deus...”
Vamos lembrar alguns exemplos de atitudes acolhedoras de Jesus?
a) O bom Pastor (Jo 10, 1-18): Neste texto, Jesus se revela como o bom
pastor, aquele que acolhe e dá a vida pelas ovelhas. É
aquele que cuida de cem ovelhas e, se uma se perde do grupo, ele vai
busca-la.
b) Maria e Marta (Lc 10, 38-42): Eis um exemplo recíproco de
acolhida. As irmãs Marta e Maria certamente prepararam a casa
e o coração para receber o Mestre. Ele, por sua vez, acolhe
a “sede” de Palavra, das anfitriãs. Até dá
pra imaginar Marta arrumando a casa, fazendo a melhor comida, enquanto
Maria conversa com o visitante. Jesus, certamente, não se sente
um “de fora”, na casa daquelas irmãs, mas um amigo,
um “de casa”. Tudo isto pelo bom acolhimento de Marta e
Maria
c) A pecadora (Lc 7, 36-50): Este texto é, também, um
grande exemplo dado por Jesus. Primeiramente, Jesus acolhendo o convite
para jantar na casa daquele fariseu que, certamente, como todo membro
do farisaísmo, ostentava, hipocritamente, grande santidade. Depois,
chega aquela mulher de “má fama”, lança-se
aos pés dele (Jesus), demonstrando vontade de mudar de vida.
Jesus perdoa aquela mulher, salvando-a do pecado. É a lição
de que nossa meta é o amor. Só o amor abre nosso coração
para receber a salvação de Jesus.
d) Zaqueu (Lc 19, 1-10): Zaqueu era, certamente, um homem não
muito querido pelo povo. Era o chefe dos cobradores de impostos. Sabendo
que Jesus estava na cidade, Zaqueu foi ao encontro dele. Como uma multidão
cercava Jesus, Zaqueu, diante da sua pouca estatura, subiu numa árvore.
Daí, o exemplo de acolhida que Jesus nos dá, através
do olhar transparente e pacificante para aquele cobrador de impostos.
A partir daí, Jesus é acolhido não somente na casa
de Zaqueu, mas, também em sua vida.
e) Crianças (Lc 18, 15-17): Quantas pessoas não valorizam,
não gostam e querem distância das crianças? Certamente,
naquele dia, quando os discípulos viram aquele monte de crianças
chegando para o Mestre abençoa-las, logo imaginaram que elas
iriam importuna-lo. Mas, Jesus chamou as crianças para perto
de si e disse: “Deixem que as crianças venham a mim”.
Estes são apenas alguns exemplos. A bíblia está
cheia de exemplos de bom acolhimento, no Antigo e Novo Testamento.
Mas, e agora, o que é acolher bem? A seguir, alguns exemplos
de atitudes do bem acolher:
a) Cumprimentar
Parece ser simples e óbvio, mas não é. Um bom dia,
boa tarde ou boa noite pode ser o segredo para desmanchar muitas barreiras
e aproximar as pessoas na família, na vizinhança, no trabalho,
na Igreja, na sociedade. Tome a iniciativa. Cumprimente com alegria
verdadeira, olhando as pessoas nos olhos. Elas se sentirão atraídas
pela sua simpatia, amadas.
b) Receber bem
Todas as pessoas gostam de ser bem atendidas, bem recebidas, em qualquer
lugar que chegam: na loja, na barraquinha da feira, nas festas, na casa
de outra pessoa e assim por diante. Na Igreja não é diferente.
As pessoas procuram o nosso atendimento e gostam quando alguém
as recebe bem. Quantas pessoas falam mal da nossa Igreja (e até
deixaram de freqüenta-la e se distanciaram), só por causa
de uma má recepção? As pessoas do nosso século
vivem uma carência afetiva e espiritual enorme: gostam quando
nos interessamos por elas, quando as tratamos pelo nome, quando as convidamos
para sentar e procuramos saber o que as trazem à nossa paróquia.
Este jeito de receber marca cada pessoa para sempre.
c) Escutar
Para quem trabalha com o público, escutar é mais importante
do que falar. Para se sintonizar com a idéia do outro, para saber
o que ele quer, suas necessidades, é preciso escuta-lo. Escutar
pressupõe prestar atenção, ser paciente, praticar
a tolerância. Muitas pessoas erram na vida porque emitem opinião
antes de escutar. Quebram a cara falando de coisas que supõem,
rejeitando idéias, sem primeiro tentar compreendê-las.
Enquanto escuta, a pessoa é capaz de dar respostas mais seguras,
com mais argumentos e de oferecer uma melhor informação.
d) Dialogar
Muitas vezes há mal-entendidos (e como acontece isso na Igreja),
porque as pessoas não dialogaram. Ninguém conversa, às
claras, sobre o assunto por medo de magoar o outro.
O diálogo ajuda esclarecer situações desagradáveis
entre as pessoas. Saber dialogar é saber acolher.
e) Informar / convidar
O contato direto com a pessoa é um momento privilegiado de convite
para as atividades pastorais e para as celebrações da
Igreja. Muitas pessoas estão por fora porque não sabem
que trabalho a Igreja realiza, desconhecem os horários das missas,
das reuniões etc A pessoa que recebe um convite simpático
vai se sentir valorizado, incluído e útil. Faça-a
saber o que a paróquia tem e que ela poderá contribuir
muito.
O processo de conversão e de engajamento de uma pessoa passa,
muitas vezes, por esta simples iniciativa evangelizadora, inerente à
função de todos os batizados. Não se canse nunca
de convidar, sem insistência.
f) Ter uma boa expressão
gestual e oral
A cultura da negação do corpo, o desconhecimento para
as potencialidades de comunicação que o corpo possui,
gera uma concepção de que a fala é o fato mais
significativo da comunicação humana. A comunicação
passa a ser concebida como um processo de pensamento e fala, onde a
cabeça age sem conexão com o restante do corpo. A comunicação
humana, no entanto, expressa-se através das mãos, do rosto,
do diafragma, das pernas, dos ombros, da coluna vertebral, dos pés,
da boca e, enfim, de todo o nosso ser, em sua complexidade e inteireza.
É preciso utilizar todo esse potencial, conscientemente, para
conseguirmos uma comunicação cada vez mais clara, objetiva
e viva; uma comunicação carregada de esperança,
de ânimo (ou de alma), que crie um clima psicológico onde
as pessoas, não raras vezes, desesperançadas, possam dizer:
“ainda é possível...!”.
g) Apresentar-se
bem
As pessoas chegam à Igreja, ou em qualquer outro ambiente, cheias
de expectativas. Vão entrando, olhando para as coisas, para as
caras das pessoas, tentando se situar no contexto. Tome a iniciativa,
vá ao encontro, simpaticamente. Apresente-se alegre, demonstrando
auto-estima.
h) Vestir-se adequadamente
O ambiente da Igreja (templo) é lugar de respeito. Por isso,
toda pessoa, especialmente os inseridos na vida da Igreja, deve vestir-se
bem, comportadamente. As mulheres devem evitar blusas muito decotadas,
tomara que caia, saias muito curtas e shorts. Os homens devem evitar
bermudas e camisetas regatas.
É interessante destacar que se vestir bem não significa
usar roupas caras, de “etiquetas famosas”. Com roupas simples,
discretas, bem passadas e limpas pode-se obter bons resultados.
i) Atender bem ao
telefone
Saber atender bem por telefone deve ser outra qualidade. Primeiramente,
não é bom deixar o telefone tocar muitas vezes. Por exemplo:
o(a) secretário(a) paroquial deve atender ao telefone dizendo
o nome da paróquia, o seu e o cumprimento do dia. Também,
deve ouvir com atenção e responder às perguntas
do outro de modo claro e sereno. Ser ágil ao transferir a ligação
para outro ramal ou ao anotar, corretamente, um recado.
Entre a pessoa que está presente e a que está ao telefone,
dê atenção imediata a quem está presente.
Caso necessite atender ao telefone, pedir a gentileza da outra pessoa
em aguardar alguns instantes.
j) Responder às
mensagens de e-mails
Com a modernidade, o uso do e-mail é bastante comum em nossa
sociedade. Aliás, tem até se tornado uma maneira ágil
e econômica de “comunicação” (fria)
entre as pessoas, empresas e instituições. Embora, nada
substitua a verdadeira comunicação, do calor humano, do
abraço, do aperto de mão, do olhar. A verdade é
que quem usa o e-mail como instrumento de comunicação
deve ter o cuidado de responder às mensagens que chegam, nem
que seja apenas pra dizer: “Bom dia, Fulano. Recebi sua mensagem.
Logo que puder, vou responde-la”.
Ah, mas cuidado pra não enviar mensagens inconvenientes para
as outras pessoas. Nem todas as pessoas gostam de receber correntes,
publicidades, piadas etc
l) Cuidar do ambiente
O ambiente também acolhe ou distancia. Os locais de celebração
e de encontros devem ser preparados pensando-se nas pessoas que chegam:
ornamentação, música, comunicação
visual. Quem chega, precisa sentir-se “em casa”.
m) Incluir os que
estão de fora
A metodologia da comunicação cristã envolve, convida,
chama pelo nome, inclui. Se uma ovelha está fora do rebanho,
deixa-se as noventa e nove para busca-la e incluí-la. Quantas
ovelhas ainda estão fora da sua paróquia? Quantas sequer
receberam um estímulo que lhes motivasse a fazer parte da vida
pastoral? Muitas vezes, as pessoas ficam por fora do trabalho pastoral
porque não têm chance para entrar e fazer parte, principalmente,
quando já existem os “donos”, o grupinho que manda
em tudo e não partilha responsabilidades, tarefas.
n) Ser espontâneo
Tudo isto não se aprende em cartilhas e nem em livros. Não
há receitas. Cada um vai encontrando as oportunidades e o tempo
certo de exercitar estes princípios da comunicação
cristã, em todos os momentos da sua vida. Devagarinho, num processo
de auto-educação e de conversão para a comunhão,
todas estas coisas vão virando hábito e se incorporando
ao nosso comportamento, ao nosso cotidiano. E tudo deve ser feito de
forma espontânea, sem artificialismos e nem teatro. O Espírito
Santo vai nos educando a vivenciar a comunicação cristã.
Mas cada um terá fazer a sua parte: abrindo-se ao novo.