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A Praedicate Evangelium e a Diocesaneidade


Pe. Matias Soares

Mestre em teologia moral (Gregoriana-Roma)

Pós-graduado em teologia pastoral (PUC-Minas)

Membro da SBTM (Sociedade Brasileira de Teologia Moral)

Pároco da paróquia de Santo Afonso Maria de Ligório-Natal/RN


O termo que é usado nas construções teóricas da eclesiologia pós-conciliar quando pretende-se falar das ‘adaptações’ dos ensinamentos conciliares às variadas realidades eclesiais da catolicidade é: “recepção”. Na América Latina, por exemplo, as proposições do acontecimento foram acolhidas e implementadas pelas Conferências de Medellin (1968); Puebla (1979); Santo Domingo (1992) e Aparecida (2007). Com a leitura dos teólogos que desenvolveram a reflexão no pós-concílio, também podemos constatar essa questão posta. Mesmo sendo o único dos Papas deste período sucessivo, que não participaram diretamente do Concílio, nem como padre conciliar, nem como perito, Francisco assume constantemente com sua prática pastoral e ensinamento magisterial as prerrogativas conciliares, tornando-as contemporâneas e inseridas no contexto de uma Igreja que está no terceiro milênio duma Era Pós-cristã (cf. C. Dotolo, Teologia e Postcristianesimo).

No documento que é proposto pelo pontífice como carta programática do seu estilo pastoral e administrativo, ele já afirma que há a necessidade de “conversão missionária de toda a Igreja (cf. EG, cap. I). Temos que ler e rezar este capítulo! No seu número vinte e cinco o pontífice afirma o seguinte: “Não ignoro que hoje os documentos não suscitam o mesmo interesse que noutras épocas, acabando rapidamente esquecidos. Apesar disso sublinho que, aquilo que pretendo deixar expresso aqui, possui um significado programático e tem consequências importantes. Espero que todas as comunidades se esforcem por atuar os meios necessários para avançar no caminho duma conversão pastoral e missionária, que não pode deixar as coisas como estão. Neste momento, não nos serve uma ‘simples administração’. Constituamo-nos em ‘estado permanente de missão’, em todas as regiões da terra”. Para Francisco o primado do ser missionário da Igreja contem suas preocupações administrativas, mesmo tendo presente que quando assumidas tendo por finalidade a promoção da ação evangelizadora, essas últimas são legítimas e podem ter um lugar necessário no melhor desempenho das práticas pastorais, quando as estruturas estão a serviço da missão da Igreja.

A temática sobre o significado da Diocesaneidade não pode ser tratada a partir de chavões do tipo: “temos que fortalecer o sentimento de pertença!” Isso é fala vaga e vazia de argumentos mais consistentes. Infelizmente, é comum fazermos uso destas verborragias sem conteúdo em nossas reuniões de sacristias, por causa da lacuna existente em aprofundarmos as “hermenêuticas teológicas” da história e das realidades eclesiais. Nos falta um trabalho pastoral mais artesanal. Algo mais embasado numa ‘antropologia integral e integrante’. Com considerações que envolvam mente, mãos e coração. Por mais, que os paradigmas tecnocráticos sejam fascinantes para alguns, que são tragados pela cultura hipermoderna, temos que assumir mais conscientemente que o caminho da ação pastoral da Igreja foi, é e será sempre a humanidade. É urgente vermos o rosto e sabermos os nomes das pessoas. Mesmo tendo tantas ‘informações midiáticas’ sobre a sinodalidade, ainda não acolhemos os métodos do sínodo propostos por Franscisco, que tem uma base teológica fantástica. Seria importante revisitarmos a teologia trinitária, principalmente a construção teórica feita a partir da “Pericorese”. Há muito tecnicismo e pouco discernimento, porque nos falta abertura à escuta do que o Outro fala e – Deus e o próximo - nos ensina para que possamos fazer a “leitura dos sinais de cada tempo” e, assim sendo, avancemos permanentemente para águas mais profundas (cf. Lc 5, 1-11).

Sem dúvida, pela sua incipiência, ainda não foi abordada a temática da Diocesaneidade, a partir da ‘recepção’ da Praedicate Evangelium – Proclamai o Evangelho - (cf. Mc 16, 15; Mt 10, 7-8), que é uma Constituição Apostólica sobre a Cúria romana e o seu serviço à Igreja no mundo. Todos precisamos lê-la e adaptá-la as estruturas curiais das Igrejas Locais. Nela, o Papa afirma que “a Igreja cumpre o seu mandato, sobretudo quando testemunha, por palavras e por obras, a misericórdia que ela própria gratuitamente recebeu. (...) Assim fazendo, o povo de Deus cumpre o mandamento do Senhor, que, ao pedir para anunciarmos o Evangelho, instou-nos a cuidar dos irmãos e irmãs mais frágeis, doentes e atribulados” (cf. PE, 1). A Igreja, como está na imagem posta por Francisco deve ser um ‘hospital de campanha’. Essa metáfora é formidável num contexto histórico, que ainda usada antes da pandemia, ganhou profundo significado, já que as sequelas existenciais, estruturais, econômicas e sociais estão fervilhando a ordem sistêmica do contemporâneo. Há membros da Igreja que ainda estão a sonhar com um estilo eclesiástico da cristandade, no qual os elementos culturais tinham as marcas identitárias por aquilo que a Igreja definia como valor ideal e de processos de vida. Com as reviravoltas epistemológicas e, com estas, também das conjunturas sociais, portadas pela modernidade, a própria Igreja necessitou de assumir o propósito de estar em constante ‘reforma’, sem renunciar ao essencial que é a sua Tradição Viva (cf. 1 Cor 11, 23-26; 15, 3-8). Essa tradição “é um movimento de constante recontextualização e reinterpretação; estudar a tradição é procurar continuidade na descontinuidade, procurar identidade na pluralidade de fenômenos sempre novos que surgem no processo de desenvolvimento. Nesse processo de transmissão, a fé surge como um fenômeno dinâmico e mutável que não pode ser espremido nos limites de uma definição estreita” (cf. Tomás Halik. “O entardecer do cristianismo”, pág. 30-31). A vitalidade da Igreja sempre esteve sustentada nesse dinamismo testemunhal, com os elementos essenciais da existência das comunidades cristãs, que no tempo e no espaço, foram professando a mesma fé, tanto pessoalmente, como eclesialmente.

A construção da eclesiologia contemporânea sobre a Diocesaneidade tem a ver, não só com a construção subjetivista do sentimento de pertença; mas, considerando a sua relação com a temática da Sinodalidade, precisa assumir a ‘reforma das estruturas eclesiásticas’, tendo em vista a missão única e universal da Igreja que é a de Evangelizar (cf. EN, 14; EG, 19; PE, 2). Essa transformação das suas organizações e canais de gerenciamento exige um processo, que já no Concílio Vaticano II foi proposto e que gradativamente vem sendo assumido pelas urgências que são postas mais velozmente com a passagem da modernidade para a pós-modernidade. Na Praedicate Evangelium é acentuado com clarividência, e com reconhecimento histórico, por Francisco o seguinte: “É no contexto da missionariedade da Igreja que se insere também a reforma da Cúria Romana. Foi assim nos momentos em que se sentiu com maior urgência o anseio de reforma, como no século XVI, com a Constituição apostólica Immensa æterni Dei de Sisto V (1588), e no século XX, com a Constituição apostólica Sapienti Consilio de Pio X (1908). Celebrado o Concílio Vaticano II, Paulo VI, referindo-se explicitamente aos desejos expressos pelos Padres conciliares, organizou e implementou uma reforma da Cúria com a Constituição apostólica Regimini Ecclesiæ universæ (1967). Posteriormente João Paulo II, sempre com a finalidade de promover a comunhão no organismo inteiro da Igreja, promulgou a Constituição apostólica Pastor Bonus (1988). Em continuidade com estas duas reformas recentes e agradecendo o serviço generoso e competente que tantos membros da Cúria, no decurso do tempo, prestaram ao Romano Pontífice e à Igreja universal, esta nova Constituição apostólica pretende harmonizar melhor o exercício atual do serviço da Cúria com o caminho de evangelização que a Igreja está a viver, sobretudo nesta época” (cf. PE, 3). A leitura e atento estudo desta constituição, sem dúvida, pode ser uma referência magisterial para o aprofundamento do significado do reordenamento das estruturas eclesiásticas, tendo como maior e genuína preocupação a atividade da Igreja que é a de anunciar o Evangelho.

Diante do exposto, cabe a pergunta: As estruturas eclesiásticas das Igrejas Locais estão cumprindo seus objetivos? Elas existem e estão a serviço de todos, ou nelas existem mais burocracia e fofocas de corte do que vias que facilitam o processo missionário? Nelas estão os clérigos de “unhas sujas” – imagem usada por Francisco para se referir aos carreiristas e burocratas do sagrado – com suas ambições e perversões éticas? O seu modo de operar é lobista, autoritário e sem transparência de ações e projetos de poder? Há a consciência de que o que compete a todos, também precisa ser tratado por todos e depois assumido por todos? O estilo sinodal lançado por Francisco, com suas bases teológicas já no Concilio Vaticano II, vem colocar em discussão essas e tantas outras questões que precisam e precisarão de respostas do povo de Deus e para este, em sua catolicidade. Para que o processo de revitalização e aprimoramento da Diocesaneidade seja levado a bom termo, as forças vivas – estruturas, pastorais, movimentos, ministros ordenados, sujeitos eclesiais – das Igrejas Particulares devem assumir propósitos, perspectivas e ações evangelizadoras bem direcionadas e visando um mesmo fim, que é o anúncio da pessoa de Jesus Cristo, com suas palavras e atitudes, buscando a concretização do Reino de Deus já, aqui e agora.

Com a proposta sinodal a Diocesaneidade, vai ganhando força e envolvimento de todo o povo de Deus a condução das ações da Igreja para que ela possa ser sacramento universal de salvação para todo o gênero humano e realidade atenta aos problemas e sofrimentos dos que dela fazem parte no hoje da história, como também dos que não são inseridos, mas tanto quanto são filhos e filhas de Deus (cf. GS, 1). Tudo deve acontecer do universal ao particular, mas também do particular ao universal. Aqui, sem dúvida, alguns temas transversais deverão ser retomados e atualizados, a saber: A teologia sacramental, especialmente a da relação entre a da relação entre o sacramento do batismo e o da ordem, a Igreja universal e a Igreja Local, o ministério dos Bispos e o do Sucessor de Pedro, que assumindo a preocupação de João Paulo II, Francisco afirma que é necessária também a “conversão do Papado etc.

Ainda, e já concluindo, cabe também instigar uma reflexão sobre a relação entre a importância da paroquialidade, neste desenrolar do fortalecimento da Diocesaneidade. Mesmo que consideremos todos os outros meios e estruturas de canalização do Evangelho, continua a ser na paróquia o lugar da vivência da fé e experiência eclesial da maioria dos fiéis (cf. EG, 27-29). Francisco apresenta orientações importantíssimas para que nos sintamos ainda mais convictos destas prementes reorganizações para que o mistério da Igreja, como Corpo Místico de Cristo, seja acolhido na fé e permaneça testemunha no amor. Assim como as demais estruturas, ela também deverá assumir a mudança dos seus programas e práticas pastorais, considerando a mudança de época e época de mudança na qual todos estamos envolvidos. Na esperança de abrirmos caminhos de diálogo e enriquecimento das discussões eclesiológicas, nos conversamos que num mundo tão marcado por guerras e divisões, os mecanismos de comunhão, participação e missão, podem e devem ser valorizados por cada um de nós. A Diocesaneidade é a possibilidade que nos é oferecida, a partir da forma sinodal da Igreja, para que todos que somos vinculados a esta pela nossa fé e pelo nosso batismo, assumamos as nossas responsabilidades para o bem comum e a salvação de todos. Assim o seja!

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