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Sacerdócio e Memória


Pe. Matias Soares

Mestre em Teologia Moral (Gregoriana)

Pós-graduado em Teologia Pastoral (PUC-Minas)

Membro da SBTM (Sociedade Brasileira de Teologia Moral)

Coordenador da Pastoral Universitária Arquidiocesana

Pároco da paróquia de Santo Afonso Maria de Ligório/Natal-RN


Os sacerdotes na contemporaneidade têm perdido a memória da “existência sacerdotal”. Essa é uma percepção pessoal. Não é imediatista. É possível constatá-la seguindo comportamentos e apresentações constantes nas mídias sociais de muitos. O tempo destes tem sido tragado pela permanência nas novas maravilhas digitais. As oportunidades para o autocuidado são renegadas pelo apego à superficialidade dos tantos afazeres hipermodernos. O acúmulo de fofocas e informações sem consistência são formas sub-reptícias de escapar do vazio e da mediocridade da e na existência sacerdotal. Os devaneios e desvios de caráter são sinalizados e levados a termo pelas estratégias de destruição dos outros, com traições constantes à lógica da própria existência cristã. Os modos de vida de alguns são contraditórios com a vocação abraçada, quiçá, nestes casos, por buscas de comodidades e status mundano, motivações pecuniárias e medo de enfrentamento dos desafios que a vida na sociedade exige em nossos dias.


Num mundo sem conteúdo, com variedades de propostas, com dramas sociais gritantes, alguns presbíteros dão contratestemunho, com comportamentos espúrios e escandalosos, do que em tempos passados os mesmos representavam, não só para a vida da Igreja, mas também para a sociedade na sua totalidade, como sinais de hombridade, dignidade, cultura e abnegação pela causa da missão. Os presbíteros eram homens que elevavam o nível religioso, social e ético das pessoas que estavam sob seus ‘cuidados’ pastorais. O modelo, principalmente depois do Concílio de Trento, que consagrou a importância da santidade, sabedoria e saúde, como qualidades necessárias à ordenação sacerdotal, já não são identificadas na condição humana de vários ministros ordenados. O ponto de equilíbrio que o Concílio Vaticano II apresentou, quando o consideramos com uma justa hermenêutica, não tomou o corpo que os documentos pós-conciliares aprofundaram (cf. JP II, Pastores Dabo Vobis) e que o Papa Francisco insiste em querer que seja observado pelas Igrejas Particulares, na formação presbiteral. O seu magistério pastoral é rico em orientações e palavras determinantes sobre a atenção que todos precisam ter na formação dos seminaristas e da própria formação permanente dos que já são ordenados.


É um sintoma muito preocupante a percepção do fenômeno do ‘des-gosto’ que estes Levitas carregam consigo em rezar e estudar. O hábito da oração e do estudo não acompanha o cotidiano de alguns presbitérios. Sem essas práticas fica a defasagem no discernimento no exercício do ministério pastoral. O Papa Francisco convida todos os membros da Igreja a buscar a vivência dessa abertura à força do Espírito, com a referência objetiva ao Evangelho. Sem a conversão a esse último, pela fé, não há ‘existência cristã’. O ministério ordenado exige essa sensibilidade, tendo em vista o bem e realização vocacional dos próprios consagrados. Quando não se busca esse estilo de vida, torna-se, simplesmente e lamentavelmente, funcionários do sagrado. Sem essas vias, a harmonização dos afetos e das ações pastorais transformam-se em ‘vida líquida’, fazer mecânico e vazio de sentido. A teologia sacramental que configura o ‘ser para o agir’ ainda gera na concepção destes uma seguridade ontológica, que por causa do secularismo, pós-cristão, vai sendo diluído gradativamente. O clericalismo denunciado pelo Papa Francisco já tem seus dias contados. Colocar a confiança nesse jeito de ser sacerdote em nossos dias e, num futuro não tão distante, já está fadado ao fracasso pessoal e institucional. As pretensas autoridades, que eram reconhecidas na Era pré-moderna e da cristandade já são ‘u-topias ingênuas’ e de muito prejuízo à vida da Igreja, que é de Jesus Cristo.


O filósofo Byung-Chul Han, que tem oferecido reflexões muito pertinentes sobre a cultura contemporânea, pondera que estamos vivendo uma “crise da narrativa”. As construções tradicionais, objetivas e continuadas já não tem sustentação. Os elementos da mentalidade hipermoderna são instantâneos, velozes e sem laços objetivos com a verdade. Ele afirma que “apesar do atual alarde sobre as narrativas, vivemos em uma época pós-narrativa. A consciência narrativa, que emana da constituição supostamente narrativa do cérebro humano, só é possível em uma época pós-narrativa, uma época estranha ao poder de vinculação característico da narrativa”. No atual contexto, “narração e informação são forças opostas. As informações intensificam a experiência da contingência, enquanto a narração a reduz, na medida em que transforma o acaso em necessidade. Falta, às informações, a solidez do ser. Como observa Niklas Luhman de forma perspicaz: ‘A cosmologia da informação é uma cosmologia não do ser, mas da contingência’. Ser e informação são mutuamente excludentes. Assim, é inerente à sociedade da informação uma carência de ser, um esquecimento do ser’” (cf. in B. Chul Han, pág. 13-14). Essa análise feita pelo pensador, nos coloca em sinal de alerta. O envolvimento continuado com o que é fenômeno das pós-narrativa nos leva a um modo de ser no tempo e no espaço com os traços da superficialidade e inconsistência identitária. Por isso, o “desencanto da vida sacerdotal” de muitos, com suas crises existenciais, é patente e sido causa de sofrimentos, tanto para os presbíteros, como para muitas comunidades eclesiais.


Assim como o conceito de memória é importante para as outras experiências vocacionais, é urgente que seja aprofundado na existência destes consagrados. Fazer memória é sintonizar o passado ao presente. Reconhecendo que as nossas vivências estão relacionadas e formatando a nossa identidade a partir de nossas escolhas cotidianas. Através de nossas atitudes coerentes e contidas na nossa liberdade plenamente exercida é que o existir e o ser sacerdotal devem se revelar. No cristão, o exercício dessa capacidade consciente de agir, procura encontrar-se com o que é proposto por Jesus no Evangelho. Se a experiência vocacional tiver uma motivação que é fruto da adesão filial ao chamado de Deus para vivência de uma missão, tendo por base o desejo de testemunhar a conversão, por causa da fé, a memória passa a ser o meio pelo qual o ministro ordenado direciona sua existência presbiteral, na consideração da resposta vocacional que um dia foi dada e que é reafirmada diariamente nas ações condizentes com a consagração feita. É questão do sujeito. É capacidade de dizer sim e viver coerentemente. É responsabilidade e autonomia relacional. É testemunhal quando está de acordo com o ‘sim’ dado e concretizado na caminhada feita, ordenada e vivida no tempo e no espaço, onde a história de cada um acontece, seguindo o modelo da passagem dos Discípulos de Emaús (cf. Lc 24, 13-35). Essa imagem sintetiza a questão vocacional, porque diz o caminho de vida que todo cristão precisa seguir.


Deste modo, cabe uma retomada continuada e leitura destes desafios que a cultura contemporânea nos apresenta. O intento da reflexão é gerar inquietação. É favorecer o nosso empenho em nos lançarmos para águas mais profundas (cf. Lc 5, 4-11). Não podemos ficar em nossas bolhas. Temos que confiar na palavra do Senhor. Permanecer nelas é se entregar às armadilhas que o tempo presente nos coloca. Não parar para discernir, é se refugiar em dividendos que os que nos precederam nos deixaram. Isso seria próprio dos desvalidos e medrosos. A vida confiada à Alegria do Evangelho é certeza de bem-aventurança presente e futura. Somos chamados a apostar e fazer com que as promessas de Deus não sejam esquecidas pelos que virão depois de nós. Isso é fazer memória. Vamos em frente. Assim o seja!

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