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Pastoral da Igreja: identidade comprometida


Por Pe. Matias Soares Pároco da Paróquia de Santo Afonso Maria de Ligório - Conj. Mirassol - Natal

A Igreja existe para ser “Mãe e Mestra” (Papa São João XXIII), à luz do mistério de Jesus Cristo, palavra eterna do Pai e filho de Deus (Cf. Jo 1,1-3; Mc 1,1). Essa é uma das suas definições pastorais mais significativas e a que descreve em plenitude a sua missão na contemporaneidade. Ela é Mãe porque gera no amor e na ternura; é mestra porque educa na fé e na verdade. O âmbito do seu dinamismo pastoral envolve o ser humano na sua totalidade. Há uma antropologia integral e integrante. A sua prática é artesanal e personalista, com uma atenção hodierna e paradigmática à ecologia integral, ao diálogo e à amizade social (Cf. LS, cap. IV; FT, cap. VI).

Quando nos lançamos a refletir sobre o conceito de ‘Pastoral’, temos que focar nossa atenção ao que nos propõe a ‘Sagrada Escritura’ e a maravilhosa e tão pouco conhecida teologia dos ‘Santos Padres da Igreja’ (Séc. II-VII). Temos um acervo muito rico de literatura do nosso patrimônio espiritual cristão, que nos contagiaria muito, se fosse conhecido com mais profundidade por mais membros da comunidade eclesial. Sem dúvida, o que é mais relevante em nossos tempos modernos é o conhecimento dos documentos do Concílio Vaticano II. Da minha trajetória de estudos das adaptações deste ideário conciliar, principalmente das Conferências Latino-americanas de Medellin (1968), Puebla (1979), Santo Domingo (1992) e Aparecida (2007), o que mais constatei é que a grande dificuldade de recepção e aplicação dos ensinamentos do Concilio, principalmente na Pós-modernidade, está na ignorância destes documentos e a confusão na sua ‘justa hermenêutica’ (Bento XVI).

A lógica que percebemos nos dias atuais na mudança de narrativa e da atuação pastoral da Igreja, que foram acontecendo gradativamente, têm suas raízes nos fatos históricos que teceram um ‘estado de crise da pastoral’, enquanto ação orgânica, sistemática, continuada, com objeto e objetivos, metodológica e, acima de tudo, que tem Jesus Cristo, o Bom Pastor (Cf. Jo 10, 1-21), como protótipo e modelo de todo o seu dinamismo, a partir do fim da modernidade (R. Guardini) e o início da pós-modernidade, com a elevação da importância do sujeito, da cultura e da técnica, sobre as Instituições e sua forma de exercer o poder. E. Kant, quando enfatiza o que deve acontecer quando o indivíduo ‘estiver esclarecido e tornar-se adulto’, trata de modo sintético e universal o que será pontuado por filósofos e teólogos que refletirão sobre a necessidade da Igreja ‘dialogar’ com todas as novidades criadas pelo Homem neste ambiente e arcabouço cultural, que será o grande ‘lugar teológico’ no qual o Evangelho precisará ser anunciado e testemunhado. Essa reviravolta da vontade de saber para a vontade de poder, será o epicentro dos demais contornos estruturais e institucionais que ocorrerão a partir dos anos cinquenta, logo após as duas grandes guerras (I-1914-18; II-1939-45).

Com o Concílio Vaticano II, a Igreja aprimora o seu estilo pastoral considerando as grandes questões desta modernidade insurgente: A subjetividade humana, a mística eclesial, com o primado do povo de Deus como protagonista de toda a ação eclesial, inclusive da própria liturgia, a centralidade da palavra de Deus, o ecumenismo, a questão da liberdade religiosa, o diálogo inter-religioso, a valorização dos meios de comunicação como novas maravilhas a serviço do anúncio do Evangelho e outras orientações formativas que reordenaram os intentos de renovação para um novo estilo de ser Igreja em todos os recantos da catolicidade. Pensemos na recepção destes ensinamentos e anseios de atualização da missão da Igreja, em nosso próprio continente Latino-americano, como já foi mencionado anteriormente.

Existe, sem dúvida, um modo diferenciado e recente de fazer pastoral nas organizações eclesiais nesta fase pós-conciliar, que “desloca do profético para o terapêutico e do ético para o estético na esfera da experiência religiosa” (Cf. A. Brighenti, ‘O novo rosto do clero’, pág. 17), e que tem gerado muitas complexidades e polarizações ideológicas, divisões e incompreensões, que colocadas na microfísica da engenharia da Igreja, confundem e desarticulam o ordenamento das práticas pastorais. Essa dificuldade ‘ocasional’ deixa um vácuo a ser preenchido, que, pouco a pouco, tem tomado formas discursivas que podem muito nitidamente favorecer a crítica feita em tempos idos de que “a religião é o ópio do povo” (K. Marx). Ainda mais, tem sido explorada em nosso País para que personalidades políticas, demagógicas e oportunistas, ocupem esse espaço deixado pela falta de objetividade e clareza de ideias da missão, comunhão e sinodalidade da Igreja, que está sendo desconfigurada no que é chamada a ser, na sua identidade pastoral e sacramento da salvação de todos.

O comprometimento da pastoral da Igreja é com o anúncio da mensagem e o testemunho do Reino de Deus, seguindo o ordenamento e o exemplo de Jesus Cristo, seu Mestre e Senhor (Cf. Mc 1,15; 16,15-16). A pastoral da manutenção, da simonia, do clericalismo, da burocracia, do curandeirismo, do psicologismo, dos lobbies, do sacramentalismo e outras atitudes desonestas, obsoletas, desencarnadas e alienantes dos contextos e condição humana, está a tomar cada vez mais distância do que é a ‘Essência do Cristianismo’ e da ‘Missão da Igreja’. Essa preocupação posta pelo Papa Francisco de ser feita a memória da nossa história é algo sempre relevante para que não nos afastemos dos raios que necessitamos do Sol, que é Jesus de Nazaré, o mesmo que garante a força imprescindível para a existência de uma autêntica e perseverante atuação da pastoral da Igreja, que é a grande Lua da humanidade, e para essa existe como servidora.

O Papa Francisco convoca toda a Igreja para viver essa experiência da ‘sinodalidade’. É muito importante que essa intenção do Pontífice não venha a tornar-se mais uma ação sem compromisso afetivo e efetivo dos membros do povo de Deus, a começar da hierarquia. Não pode ser um ‘chavão platônico’ de quem não tem experiência pastoral e vive apegado a estruturas pueris e ressentidas de poder. Ela precisa ser envolvente de todos aqueles que fazem a vida periférica, tanto geograficamente, quanto existencialmente, da comunidade eclesial. Ainda mais, ela pode considerar os ateus, agnósticos, viciados, inclusive em redes sociais, os políticos, os que estão na comunidade acadêmica e, enfim, todos os homens e mulheres de boa vontade. Essa experiência, deveras, precisa ser uma convenção que diga muito do que a Igreja será chamada a ser no seu futuro, não tão distante.

Por fim, essa dimensão pastoral da Igreja é uma realidade com sua “complexidade” (E. Morin), porque é constituída do humano. Para que não ceda às tentações continuadas do pecado, é chamada a ser uma estrutura ‘reconciliada’. Sua identidade e missão é algo muito fino e exigente. Ela necessita repensar o seu pensar e modo de ser e estar neste Mundo pós-pandêmico. A conversão precisa perpassar todos os seus eixos sistêmicos. Um dos grandes benefícios que poderemos conquistar do “Sínodo sobre a Sinodalidade” é que a nossa ação pastoral possa ser cada vez mais de “comunhão, missão e participação”. Enquanto não nos chega um Vaticano III, esse já seria um maravilhoso ganho para o DNA da nossa dinâmica pastoral. Assim o seja!

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