O Presbítero: a Pessoa


Por Pe. Matias Soares Pároco da Paróquia de Santo Afonso Maria de Ligório - Mirassol - Natal


A identidade da pastoral da Igreja, na sua totalidade, tem passado pela crise tão peculiar que é própria da contemporaneidade. Esta está envolvida e vivendo a ‘ditadura do indivíduo’ (E. Sadin). Esse fenômeno aparece no desenvolvimento da modernidade, que tem na ‘subjetividade e no individualismo’ suas características antropológicas, que reconfigurarão a própria realidade da Igreja na sua dimensão histórica (R. Guardini). É necessário que façamos um caminho mais consistente para pensarmos a dimensão pastoral da Igreja, que terá sempre a ‘pessoa humana’ como seu fim e o seu meio mais importantes (Lc 10, 25-37). O evangelho precisa estar mais presente nas suas ações para que ela possa ser ‘pastora, mãe e mestra’, não só, narrativamente, para os que estão fora; mas de modo mais samaritano e compassivo para os que estão dentro. No caso em questão, nos presbitérios das Igrejas Particulares.


A ação pastoral precisa ser mais personalizada, humanizada e, como nos ensina constantemente o Papa Francisco, com ‘proximidade’. Por mais que o desenvolvimento tecnológico tenha nos alcançado e, muitas vezes, nos escravizado, dominado e viciado, ele não pode substituir a ‘presença’ humana e evangélica do modo de ser e agir da Igreja. Infelizmente, está acontecendo um desvirtuamento que desumaniza e coisifica as práticas dos membros da Igreja, suas pastorais, seguimentos, ordens religiosas, novas comunidades, serviços e afins, que são canais do evangelho, que precisam ‘chegar perto da pessoa, vê-la e sentir compaixão de suas dores’ (Lc, 10,34), ainda mais, é necessário ‘cuidar dela integralmente’ (Lc 10,35). A pastoral da Igreja tem aqui a metodologia a ser seguida para toda e qualquer estrutura que faça parte da sua organização e que precisa ‘converter-se’ para ser servidora e não só uma engenharia preocupada com um poder sem credibilidade, sem doação e narcisístico.


Neste cenário precisamos colocar a ‘pessoa do presbítero’. Diferente do que acontecia antes das reviravoltas da modernidade, a sua humanidade está mais visível do que a sua sacralidade. Por mais que esteja existindo uma luta ‘retrópica’, alienada e descontextualizada, contra os fenômenos históricos, que já foi tão patente enquanto método usado pela Igreja para combater os avanços da modernidade, a ‘existência presbiteral’ está sendo, ‘espetaculosamente’, exibida nas novas praças e areópagos das mídias sociais. Os erros cometidos, tanto pessoalmente, como no manuseio destas ferramentas, têm tornado mais aparente a condição humana destes ministros ordenados que, mesmo tendo sido educados estruturalmente e institucionalmente para estarem no poder e com vontade de poder, e aí a ideia de clericalismo, veem sua humanidade sendo escarnecida sem compaixão e de modo desrespeitoso. A questão que deve nos inquietar neste contexto é: muitos presbíteros não estão preparados, nem durante a formação seminarística, nem depois de ordenados, com a formação permanente, para viverem os desafios sociais e pessoais que a hipermodernidade está trazendo constantemente. A maioria vive como se estivesse numa bolha, com seus feudos obsoletos e de manutenção de um status quo superado e que não convence mais o mundo de hoje, principalmente pela falta de testemunho evangélico, eclesial e existencial de alguns. Com isso, os problemas que aparecem e que precisam ser olhados de frente e com coragem.


É hora de autocrítica, consciência, responsabilidade e amor aos valores do evangelho e à Igreja, que é de Jesus Cristo. A Era atual exige isso de todos nós. Todos nós! Como nos lembra o Papa Francisco, pecadores sim! O somos. Temos que reconhecer! Mas corruptos, não! Na teologia moral de Francisco, corrupto é aquele que não reconhece o pecado e não tenta converter-se. É a pessoa que perdeu a sensibilidade da consciência para o ato pecaminoso e não se abre à misericórdia de Deus. Um presbítero que caiu nessa armadilha, nem cristão conseguirá ser, do ponto de vista existencial. Pode ser batizado e ordenado, mas não estará aberto à ‘autocomunicação’ da graça misericordiosa de Deus, revelada em Jesus Cristo. A questão é muito séria, porque nos desafia a todos. Não esqueçamos: todos nós presbíteros! Temos que nos colocar no processo de reconstrução, conversão e abertura às possibilidades de maturação da nossa existência presbiteral.


Nas Igrejas Particulares do Brasil tem sido fomentada a ‘pastoral presbiteral’. Sem dúvida, tendo em vista toda a complexidade da contemporaneidade e a inserção dos presbíteros nestas redes de relações, essa é mais uma importantíssima via de evangelização daqueles que estão nas comunidades eclesiais. Os presbíteros necessitam urgentemente de ‘cuidado personalizado’. Não podemos ficar numa pastoral de WhatsApp, líquida e envernizada. Basta de preocupação com as estruturas de poder. Esse mecanismo de atuação da Igreja é superado e, muitas vezes, até perverso. A atenção deve voltar-se à pessoa do presbítero, com sua história, seus dramas, suas angústias e possibilidades. Temos que lembrar, mais uma vez, do que o Papa Francisco nos ensina: faz-se mister fomentar a ‘cultura do encontro’. Vamos ao encontro dos presbíteros que sofrem. Abramos possibilidades existenciais novas, como por exemplo a convivência dos presbíteros em ‘células sacerdotais’, como já escrevi em outro momento sobre essa via de organização existencial e pastoral das comunidades paroquiais. Basta de criar paróquias para dar ‘pedaços de terra’ a padres. Isso é mundano, medieval e sinal de incapacidade para pensar o todo.


A pastoral presbiteral tem que funcionar como uma ‘pastoral’, ou seja, ela precisa ser uma ação orgânica, metodológica, com fins específicos e que tenha como conteúdo o evangelho, focando a atenção às pessoas que têm um ‘nome e um rosto’ (E. Lévinas). A importância dada às demais ciências, além da teologia, neste processo de revisão, é sumamente necessária. Sejamos firmes e perseverantes neste propósito. É o bem dos presbíteros e das comunidades eclesiais que está em questão. É a pessoa que está em jogo. Não, simplesmente, o que este ‘indivíduo’ representa para o funcionamento da engenharia eclesiástica. Até porque, se um membro não está bem é o corpo todo que padece. Essa concepção faz parte da nossa ontologia eclesial. Aqui surge uma questão delicada: a qualidade também teológica de todos que assumimos tarefas pastorais nesta conjuntura. A contemplação para o discernimento é importante. “Quando a cabeça não pensa, o corpo padece”, já nos lembra o adágio.


Por fim, é tempo de reavaliarmos nossas concepções pastorais. O olhar da Igreja para o mundo acontece a partir do evangelho. O Papa Francisco nos oferece pistas valiosíssimas. Ele é um cristão. Quer a conversão missionária de toda a Igreja. Coloca como ponto de partida desta reforma pastoral, o encontro alegre e confiante com a ‘Pessoa de Jesus’ (EG, cap. I). A pastoral presbiteral também deve ser essa ‘Igreja em Saída’. Urge uma metodologia diferente. Uma mentalidade diferente, com capacidade de escuta e abertura para projetos mais humanos, fraternos e sinodais. É o bem de todos nós que está em jogo. A Igreja é de Jesus Cristo, não é nossa. Assim o seja!