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O Padre: mágico e homem de medicina...?


Pe. Matias Soares

Mestre em Teologia Moral (Gregoriana-Roma)

Pós-graduado em Teologia Pastoral (PUC-Minas)

Membro da SBTM (Sociedade Brasileira de Teologia Moral)

Pároco da paróquia de Santo Afonso M. de Ligório-Natal/RN.



A pessoa do sacerdote, com sua identidade e missão, sempre teve uma importância fundamental para a história do cristianismo católico. Tenho refletido em várias ocasiões sobre seus dilemas ontológicos e existenciais no contemporâneo. É patente a constatação que estamos envolvidos em questões muito sérias, que devem fazer com que nos perguntemos, mais uma vez, como foi visto no pós-concílio, o lugar que os padres ocupam no mundo de hoje? Qual o seu valor para o humano pós-moderno e pós-humanista? Qual a sua credibilidade numa sociedade que tem conhecimento de casos, mesmo que de uma parcela ínfima de consagrados, dos abusos de menores, que tanto envergonham e fazem com que, por causa de “alguns”, todos sejam estigmatizados? Muitos questionamentos deveriam ser enfrentados em nossas “rodas de conversas presbiterais”, com transparência, com preocupação no cuidado-de-si e amor à Igreja, que é o povo de Deus (cf. Lumen Gentium, cap. II).


O teólogo Ives Congar tratando da crise do sacerdócio por causa do secularismo, na França, logo após o Concílio, assim pondera: “hoje tortura muitos padres no seu ministério. Isso é particularmente evidente no terrível sentimento de estar num vazio entre homens que organizam a sua vida social sem nenhuma necessidade do padre, sem que tenham nada a pedir dele... no passado o padre foi sempre um elemento ativo na sociedade. Hoje não é mais e, pelo menos na França, nem deseja mais sê-lo. ‘O padre deve ser reconhecido como o homem de Deus’. Mas o mundo de hoje tem pouca necessidade de Deus. ‘Interessa-se por mágicos e homens de medicina, mas um homem do Evangelho’... (cf. “Cinco problemas que desafiam a Igreja de hoje”, pág. 118)”. Nesta última observação feita pelo teólogo, podemos fazer uma relação com o que é assumido por muitos sacerdotes no atual cenário eclesial. Assim como nos anos setenta, também há confusão existencial da pessoa do presbítero no contemporâneo, que o torna refém e, nalguns casos, oportunistas que fomentam alienação das pessoas e descrédito da Igreja, tendo em vista seu bem estar narcísico e econômico. O presbítero que esquece a sua missão de ser homem de Deus e apóstolo do evangelho de Jesus Cristo, através da e na Igreja à humanidade, torna-se mais um “idiota útil à cultura consumista e desumanizadora da religião de mercado”: Aquela do toma lá dá cá.

Essa anemia espiritual que está patente na cultura hipermoderna é detectada na existência cristã e na dos ministros ordenados através do mundanismo espiritual. O Papa Francisco apresenta densamente como este manifesta-se na vida eclesial (cf. EG, 93-97). Neste último número, ele assevera: “Quem caiu neste mundanismo olha de cima e de longe, rejeita a profecia dos irmãos, desqualifica quem o questiona, faz ressaltar constantemente os erros alheios e vive obcecado pela aparência. Circunscreveu os pontos de referência do coração ao horizonte fechado da sua imanência e dos seus interesses e, consequentemente, não aprende com os seus pecados nem está verdadeiramente aberto ao perdão. É uma tremenda corrupção, com aparências de bem. Devemos evitá-lo, pondo a Igreja em movimento de saída de si mesma, de missão centrada em Jesus Cristo, de entrega aos pobres. Deus nos livre de uma Igreja mundana sob vestes espirituais ou pastorais! Este mundanismo asfixiante cura-se saboreando o ar puro do Espírito Santo, que nos liberta de estarmos centrados em nós mesmos, escondidos numa aparência religiosa vazia de Deus. Não deixemos que nos roubem o Evangelho!”, nos alerta Francisco. Essa distorção identitária, que atrofia os cristãos, em quaisquer estados de vida nos quais estejam envolvidos, é sempre preocupante quando o que está em questão é o bem da própria Igreja.


O sacerdote que veste a fantasia de mágico, ou médico, ao viver em contraposição e esquizofrenicamente a sua missão, assume a própria crise como uma verdade sobre si mesmo. Assim como “o homem é homem em proporção com a verdade”, segundo Romano Guardini (cf. “A responsabilidade do estudante em face da cultura”, pág. 10), o sacerdote é reconhecido como tal se viver a sua condição sacerdotal total e integralmente situado na história. Neste sentido, temos que focar a nossa referência nos ensinamentos do Concílio Vaticano II, ao tratar das funções dos presbíteros (cf. PO, cap. I, 4-6). Mesmo existindo tensões interpretativas pós-conciliar sobre a identidade do sacerdote-presbítero e o presbítero-sacerdote, na síntese teológica a complementariedade é a que tem uma resposta intelectualmente honesta e promissora. É necessária a racionalidade. Ainda com Guardini, as perguntas já postas pelos gregos para buscarmos essa verdade da existência devem ser as seguintes: “O que é que existe? Qual a sua essência? Qual é o seu sentido? O que é essa energia fundamental, com que o ser se impõe contra o nada?” Esses questionamentos são válidos para o cristão e, ainda mais, para nós, ministros ordenados, que patinamos em meio a tantas relações geográficas e existenciais da ordem sistêmica pós-secular. Para o teólogo ítalo-germânico, “a vontade de querer viver conforme esta verdade, traz consigo uma prontidão para o essencial e válido” (cf. Idem). A verdade que ‘acontece instantaneamente’ na vida do sacerdote, através do sim e da memória realizada, é a força do seu ministério.


A nossa verdade sacerdotal deve tornar livre e saciar o nosso espírito. O presbítero é chamado a “ser padre, nada mais do que padre!” Homem de honra e hombridade. Com uma humanidade integrada e sadia, já que “a graça pressupõe a natureza”. É triste constatar, mas existem sacerdotes que não têm caráter. Infelizmente, passam pela formação e camuflam seus desvios de personalidade. Assumem posturas lobistas e perversas na relação com o povo e os irmãos de presbitério. Vivem de fofocas e disseminação da maldade. Usam, em nossos dias, os canais digitais para ferir e ofender, sem preocupação com os básicos e essenciais valores evangélicos. Tornam-se padres; porém, nunca se preocupam em ser cristãos. Ferem e renegam, sem nenhum escrúpulo, a caridade, na sua ‘escolha’ de não serem pessoas bem-aventuradas (cf. Mt 5, 1-12). Fazem do ministério um meio de vida e assumem estilos errôneos, marcados pela perversidade e insensatez. Nem sempre, as pessoas, na sua bondade e confiança eclesiais, percebem esses tipos horrendos. Assim como muitos políticos, usam o altar para a demagogia e balcão de comércio; sem lembrar, que alguns destes envergonham e geram o descrédito na Igreja, com seus assédios sexuais, inclusive de quem é indefeso. Esse protótipo faz tanto mal ao povo de Deus, com práticas destrutivas da dignidade dos semelhantes e anseio de poder. É importante, à autodefesa, o conhecimento da psicologia destas fraudes eclesiásticas.


A saída e a proposta é sempre a abertura a ação do Espírito Santo pela “conversão ao evangelho”. O apóstolo Paulo nos lembra que o genuíno débito do cristão é com o “mandamento do amor e sua vivência na relação com os irmãos (cf. Rm 12; 1Cor 13). As virtudes teologais, que potencializam aquelas humanas, elevam o existir cristão e abrem as vias para que cada fiel ‘venha a ser’ discípulo do Senhor (cf. Jo 13, 31-35). Atento aos sinais dos tempos e com abertura ao ‘discernimento do Espírito Santo”, os ministros ordenados não podem negligenciar essa busca cotidiana pela santidade (cf. Mt 5, 48), já que antes de ser consagrado à comunidade para o serviço, não pode olvidar a sua vocação universal à santidade, que é-lhe conferida desde o batismo. As construções culturais da Era pós-secular e, agora, pós-pandêmica, estão a afogar essas sensibilidades. Mais do que nunca, os ministros ordenados precisam ser Homens da adoração e da sensibilidade ao que a humanidade está a viver. É urgente parar e rezar; é importante estudar; é justo cuidar-se para cuidar; é evangélico servir, e não se servir.

Por isso, à pergunta “o Padre: mágico e homem de medicina” ...? Podemos e precisamos dar muitas respostas, tanto como comunidades cristãs católicas, quanto como ministros ordenados. Sem seriedade, mística cristã e sacerdotal, não conseguiremos. Caso não exista essa séria preocupação, seremos, assim como já acontece em contextos mais secularizados, “os palhaços do circo, em quem já não se acredita, quando estes anunciam que o incêndio está acontecendo” (cf. J. Ratzinger. “Introduzione al Cristianesimo”, cap. I). No contemporâneo, os desafios que nos são postos pela cultura neo-pagã, inclusive com muitos sinais de religiosidade, estão a nos provar. Ou partimos para o Cristianismo radicado no evangelho, ou não conseguiremos ser testemunhas credíveis da Ressurreição do Senhor e apóstolos da Alegria do Evangelho. Assim o seja!

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