O Movimento de Natal: Sinodalidade e Diaconia Social


Por Pe. Matias Soares

Pároco da Paróquia de Santo Afonso Maria de Ligório/Natal-RN


O Papa Francisco tem trazido e incentivado a construção teológica e a prática pastoral da Igreja a partir da sinodalidade. No seu discurso por ocasião da Comemoração do cinquentenário da Instituição do Sínodo dos Bispos (17/05/2015), Francisco afirma que a sinodalidade é “o caminho que Deus espera da Igreja do Terceiro Milênio”. Neste mesmo pronunciamento encontram-se o esquema e o significado da sinodalidade. Há uma ampla atenção e incentivo a fim de que este ‘estilo de atuar’ da Igreja seja vivido em toda e por toda a catolicidade. Um sínodo está sendo preparado sobre o tema, com uma intensa preocupação de ‘escuta’ do povo de Deus. Esta é, de fato, uma grande mudança metodológica, que caminha tendo como referencial teórico as concepções teológicas do Concílio Vaticano II, com atenção especial ao capítulo II da Lumen Gentium, que trata da Igreja com sua ontologia constitutiva enquanto realidade formada por ‘todo o povo de Deus’, consagrado pelo batismo e com o seu Sensus Fidei como sinal da presença do Espírito Santo, que anima toda a vida e a dinâmica da Igreja; além do magistério dos Pontífices Pós-conciliares.


Quando paramos e estudamos toda essa efervescência sonhada pelo Papa Francisco, ainda mais quando é-se filho da Igreja Particular de Natal, não há como não recordar do ‘Movimento de Natal’. Esse foi uma das maiores e mais exitosas ações pastorais da Igreja do Brasil e no Brasil. Essa preocupação com o protagonismo dos leigos, a importância do papel das mulheres nos lugares de decisão da Igreja, a atenção aos desafios sociais e econômicos dos mais pobres, o êxodo rural e a situação do homem do campo, o valor dado à educação como fator de libertação e conscientização das pessoas, a formação permanente dos ministros ordenados e lideranças do povo... enfim, tantas outras atividades que foram referências para a Igreja do Brasil e em outros lugares do mundo, são nos dias atuais ainda sonhadas por essa Igreja, que ainda espera ter todas as orientações do Vaticano II serem integralmente recepcionadas e concretizadas. Nisso tudo, já existia, naqueles idos, uma preocupação com a pastoral de conjunto, ou seja, esse ‘caminhar juntos’ de todo o povo de Deus que estava sendo organizado para assumir a sinodalidade e a diaconia social dentro da Igreja e com o olhar para sentir os grandes desafios dos sinais dos tempos, com a atenção aos movimentos da história, com fidelidade aos ensinamentos e orientações da Igreja como Mãe e Mestra (João XXIII).


A Comissão Teológica Internacional, quando trata dessa diaconia social, afirma que a “vida sinodal da Igreja se oferece, em particular, na promoção de uma vida social, econômica e política dos povos sob o signo da justiça, da solidariedade e da paz”. Continua a Comissão descrevendo que

“A prática do diálogo e a busca de soluções compartilhadas e eficazes em que a pessoa se empenha para construir a paz e a justiça são uma absoluta prioridade em uma situação de crise estrutural dos procedimentos da participação democrática e de desconfiança nos seus princípios e valores inspiradores, com o perigo de desvios autoritários e tecnocráticos. Nesse contexto, é empenho prioritário e critério de toda a ação social do povo de Deus o imperativo de escutar o grito dos pobres e aquele da terra, recordando com urgência, na determinação das escolhas e dos projetos da sociedade, o lugar e o papel privilegiado dos pobres, a destinação universal dos bens, o primado da solidariedade e o cuidado da casa comum” (Cf. CTI, A sinodalidade na vida e missão da Igreja, n. 119).


Essa aplicação dos princípios do ‘pensamento social da Igreja’ já estava presente no Movimento de Natal. É interessante e importante que uma pesquisa mais pormenorizada seja feita para que, a partir do antigo, revitalizemos o presente, tendo em vista, é claro, esse ‘admirável mundo novo’ que nos aguarda também no futuro. Existia o que hoje, no campo teológico, é muito almejado, que é o de fazer-se uma “teologia pública”. A teologia não era a de sacristia, onde a preocupação com os ornamentos e arreios é mais importante do que a oração e o estudo. Vale ressaltar, que os presbíteros que começaram o Movimento vinham de uma consistente formação teológica. Eram formados no seminário da Prainha, em Fortaleza, com a direção dos padres Lazaristas. O dinamismo pastoral era fruto de uma alicerçada formação espiritual e intelectual. No início, eram seis. Mas, é narrativa comum que, mesmo com tanta distância geográfica, existia uma ‘proximidade presbiteral’ que era testemunho para os demais componentes do corpo místico e eclesial da Arquidiocese.


Nos tantos recantos e realidades periféricas da nossa amada Igreja Particular encontram-se sinais, testemunhos e estruturas deste momento áureo da Arquidiocese de Natal. Podemos encontra-los e sentir o seu significado visível e simbólico para a história feita pelo amado povo de Deus, que compuseram e compõem essa nossa realidade eclesial, nas variadas paróquias de cada região eclesial. É-me de feliz lembrança de que, por incrível que pareça, só vim entender a grandiosidade destas ações eclesiais e sociais, quando estive na Bélgica, na cidade de Mons/Bélgica, para visitar o Pe. Collard, que foi um dos curiosos e interessados que estiveram em Natal para conhecer o Movimento. Quanta alegria e brilho nos olhos daquele que, já como sacerdote idoso, ao falar sobre a Igreja de Jesus Cristo, que estava no Nordeste brasileiro, especialmente no Rio Grande do Norte, com a liderança de Dom Eugênio, era deveras um grande sinal de esperança para as pessoas que dela faziam parte, direta ou indiretamente! Poderia citar tantas religiosas, outros sacerdotes, tantos fiéis leigos que viveram e conheceram aquele protagonismo ousado e confiante na força transformadora do Evangelho, que além de promover o encontro pessoal com Jesus Cristo, era força de libertação do povo de Deus.


A Igreja é peregrina. Tem um processo de crescimento e maturação constante na história. As motivações existentes no Movimento de Natal podem e devem continuar a estar nos corações e mentes dos que são membros desta porção do povo de Deus, neste momento crucial da contemporaneidade, tão marcado pelas sequelas econômicas, estruturais sociais e, acima de tudo, existenciais das pessoas. A situação dessa nova ordem sistêmica tem que encontrar um novo modo de encantamento. Numa Era marcada pela crise de sentido, que foi próprio dos sentimentos da humanidade do Pós-guerra, estamos mais uma vez aos pedaços. Vivemos uma ‘ditadura do indivíduo’ (Eric Sadin). Ela agrava-se cada vez mais por causa da força alucinante das novas tecnologias e do Pós-humanismo. Tudo parece apocalíptico e digno de ensimesmamento acerca de tantas incertezas. O fortalecimento da sinodalidade eclesial é de fato uma trajetória a ser intentada por todos os que são membros da Igreja de Jesus Cristo, que tanto quanto em outros momentos da história, evoca-nos a sermos sinais de esperança para os que estamos dentro e, ainda mais, para os que estão fora como ‘hospital de campanha’ (Papa Francisco).


A conjuntura social, política e econômica do nosso país torna essa preocupação de olharmos o passado, que pode trazer luzes ao presente, com atenção ao que podemos aprender e portar para esse hodierno cenário, uma ação que exige de todos nós um profundo ‘discernimento’, que pode acontecer numa perspectiva cristã, através do conhecimento e testemunho do Evangelho, com abertura ao Espírito de Deus, que é o Libertador pleno de todos os que Nele confiam. Essa adesão e testemunho de caridade precisam acontecer de forma sistemática, enquanto prática permanente que fortalece a promoção humana e integral de todos os descartados da sociedade, como nos ensina o Papa Emérito, Bento XVI, na Deus Caritas est (Cf. II parte). O Movimento de Natal tinha a preocupação, outrossim, com essa ação social sistemática. As metas e projetos eram traçados com esmero e senso de responsabilidade. Não era feito de qualquer modo. Essa atenção à sistematização das atividades levou a própria Igreja no Brasil a ter planos pastorais orgânicos que considerassem a situação de toda a realidade brasileira, principalmente com a implementação do método da ‘ação católica: o ver, o julgar e o agir’.


Neste terceiro milênio, sentindo os intentos da Igreja para as atuais circunstancias, faz-se mister um levante pastoral que possa fazer com que a Igreja seja muito mais do que dispensadora de sacramentos, e, às vezes, fazendo-o de modo simoníaco, com essa dinâmica almejada pela proposta da sinodalidade. Urge uma ação pastoral qualificada e continuada. Essa perspectiva tem que pensar a ecologia pastoral considerando as muitíssimas realidades de pessoas que estão nas periferias geográficas e existenciais da Igreja Particular de Natal. A questão é: quem está ‘olhando e escutando’ esses agrupamentos que vivem na exclusão social, econômica e, infelizmente, também eclesial? A Igreja não pode ficar com um pires nas mãos esperando por partidos políticos e atrelada às ideologias, tornando-se deste modo uma ‘prostituta’ da corte e sem escutar os clamores dos mais pobres dos pobres. A sinodalidade vivida pelo Movimento de Natal proporcionou a ‘diaconia social’ porque confiou na beleza do Evangelho, que salvou, salva e salvará o mundo.


Enfim, é tempo de esperança e confiança na ação providencial de Deus. A sinodalidade pode trazer para as nossas práticas pastorais, assim como o fez com o Movimento de Natal, muitas possibilidades a serem desenvolvidas. Temos que ousar e nos envolver, com encanto, nestas construções teológicas e eclesiais, que estão sendo elaboradas. A Igreja Particular de Natal tem uma história belíssima. Ela é além de tudo isso, terra dos Protomártires do Brasil. Assim o seja!