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Inteligência artificial e paz


Dom João Santos Cardoso

Arcebispo Metropolitano de Natal

 

Na sua mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2024, o Papa Francisco aborda a relação entre a inteligência artificial (IA) e a paz, destacando tanto os avanços tecnológicos quanto os riscos associados ao seu desenvolvimento desenfreado. A discussão abrange temas cruciais, como a urgente necessidade de educação para promover o pensamento crítico em relação à IA e a elaboração de diretrizes éticas e legais para regular seu desenvolvimento e uso, garantindo que a IA sirva ao bem comum, contribuindo para o desenvolvimento integral da humanidade e fomentando a paz.


O Papa ressalta, em sua Mensagem, a complexidade da IA, evitando uma definição única e preferindo o termo "formas de inteligência" no plural. Essa escolha indica a diversidade desses sistemas e sua impossibilidade de replicar completamente a inteligência humana. Além disso, sublinha que tais dispositivos, sendo distintos entre si, devem ser vistos como "sistemas sociotécnicos", cujo impacto depende não apenas da tecnologia em si, mas também dos objetivos, interesses e situações em que são desenvolvidos e utilizados. A IA, apesar de avançada, permanece fragmentária e sujeita às decisões humanas, tornando crucial sua abordagem não apenas como uma questão técnica, mas também ética, social e política, com a responsabilidade de garantir seu uso em prol da humanidade e da paz, respeitando os valores fundamentais.


A inteligência artificial levanta questões éticas de diversas ordens, como manipulação social, invasão de privacidade e automação do trabalho e de decisões, com o risco de agravar as injustiças, o desemprego e as desigualdades sociais. Para enfrentar esses desafios, é crucial pensar em mecanismos de regulamentação, vigilância e uma abordagem centrada nos valores essenciais da sociedade, como inclusão, transparência, segurança e equidade. O desenvolvimento ético dos algoritmos deve ser interdisciplinar, garantindo a preservação dos valores humanos. A regulação global da IA pelos Estados soberanos e a coordenação de ações por Organizações Internacionais são essenciais para incentivar práticas éticas e evitar aplicações prejudiciais. No processo de estabelecer normas, é crucial incorporar as vozes de todas as partes interessadas, considerando valores humanos que orientarão quadros legislativos e abordando questões profundas relacionadas à existência humana, à proteção de direitos fundamentais e à busca por justiça e paz.


É preciso equilibrar o desenvolvimento tecnológico com a ética em vista da paz e o bem da humanidade. "Numa ótica mais positiva, se a inteligência artificial fosse utilizada para promover o desenvolvimento humano integral, poderia introduzir inovações importantes na agricultura, na instrução e na cultura, uma melhoria do nível de vida de inteiras nações e povos, o crescimento da fraternidade humana e da amizade social. Em última análise, a forma como a utilizamos para incluir os últimos, isto é, os irmãos e irmãs mais frágeis e necessitados, é a medida reveladora da nossa humanidade" (PAPA FRANCISCO. Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2024).


No contexto da Mensagem, a educação emerge como a pedra angular para moldar uma sociedade capaz de gerenciar os avanços da IA com sabedoria e responsabilidade, garantindo que a tecnologia contribua para o bem comum e para uma paz duradoura. A formação em novas ferramentas de comunicação deve priorizar o pensamento crítico, especialmente entre os jovens, para discernir informações e conteúdos produzidos por sistemas de IA, abordando não apenas desinformação e notícias falsas, mas também educar para superar as bolhas e barreiras culturais, contribuindo para a coexistência pacífica em que a tecnologia é empregada para promover a comunhão, não as divisões, ódios e preconceitos.


Ao abordar amplamente os desafios éticos e sociais da IA, a Mensagem promove a reflexão sobre os valores humanos subjacentes ao seu desenvolvimento, ressaltando a importância da ética, educação e regulamentação internacional na busca por um futuro digital ético e pacífico. Por isso, a responsabilidade de moldar o impacto da IA na sociedade deve ser compartilhada por toda a família humana, não apenas pelos desenvolvedores. Assim, a educação é fundamental para gerenciar os avanços da inteligência artificial com sabedoria e responsabilidade, assegurando que a tecnologia contribua para o bem comum e a paz duradoura.

 

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