Concílio Vaticano II (1962-2022): 60 anos de uma carícia divina


Por Pe. Paulo Henrique da Silva Vigário Geral da Arquidiocese de Natal


Voltando para casa, encontrareis vossos filhinhos; fazei uma carícia aos vossos filhinhos e dizei: “este é um carinho do Papa”!

(São João XXIII. 11 de outubro de 1962, na noite da abertura do Concílio Vaticano II, na Praça de São Pedro)

É assim que entendemos o evento eclesial mais importante do século XX: uma carícia de Deus. O Concílio Vaticano II, o 21º da lista dos Concílios Ecumênicos da Igreja Católica, celebrado de 1962 a 1965, no Vaticano, com a participação de mais de 2.500 bispos, vindos de diversas partes do mundo para o aggiornamento proposto pelo Papa Bom, o homem da alegria, que desejava abrir as portas da Igreja para espantar o mofo e o obscurantismo reinante.


No próximo dia 11 de outubro, a Igreja celebrará 60 anos do início deste grande evento, marcante para a história da Igreja e do mundo. É o Concílio da Igreja que se sente “mundial”, como se expressou o grande teólogo católico, perito do Concílio, o jesuíta alemão Karl Rahner. Grandes temas foram tratados, grandes mudanças foram esperadas, não mudanças que romperiam com a Tradição, mas um retorno às fontes, um ressourcement, mais genuíno, mais próximo do Evangelho, da Palavra, do testemunho de santidade daqueles que estiveram no início da construção da linguagem da fé, do tempo dos grandes nomes da Tradição, com a revalorização da comunidade, do retorno ao alimento da Palavra, da compreensão mais clara e celebração mais participada do Mistério Pascal, da experiência da unidade dos irmãos e irmãs em Cristo à luz da Unidade da Trindade, do desejo de fraternidade universal, da construção de uma Igreja mais solidária e mais humana à luz do mistério da Encarnação, ápice da comunicação que Deus faz de si mesmo ao homem e à mulher.


Demos graças e louvores ao bom Deus por ter feito acontecer o Concílio Vaticano II. Um verdadeiro ato de carinho divino pela Igreja e pelo mundo. Celebremos esse aniversário, sobretudo, deixando nossa mente e nosso coração mais próximo e mais consciente da riqueza do seu espírito, não apenas conhecendo os seus documentos, cheios de riquezas e de declarações que são vinculantes para nossa fé, mas vivendo a espiritualidade do Concilio Vaticano II: conscientes de que somos destinatários da revelação divina, como autocomunicação de Deus a nós (Constituição dogmática sobre a Revelação divina, Dei Verbum), vivendo na Igreja como sacramento universal de salvação (Constituição dogmática sobre a Igreja, Lumen gentium), não para ser uma sociedade fechada e triunfalista com espírito mundano, mas aberta e sensível às alegrias e às esperanças, às tristezas e às angústias presentes nos homens e nas mulheres do nosso tempo (Constituição pastoral sobre a Igreja no mundo de hoje, Gaudium et spes), celebrando a Vida de Deus em nossa vida, com alegria e paz, não só para nós, para o mundo inteiro (Constituição sobre a liturgia Sacrosanctum Concilium).


Que essa “espiritualidade do Concílio” alimente nossa vida, nossas atividades pastorais, para que sejamos “bons cristãos e honestos cidadãos” (Dom Bosco).