Celebremos São João sob o testemunho da humildade e da coragem



Por Dom Jaime Vieira Rocha Arcebispo de Natal

Caríssimos irmãos e irmãs!


Neste dia 24, a Igreja celebra a festa litúrgica da natividade de São João Batista, efeméride que tem uma conotação especial para o povo nordestino, ocasião em que a fé e a cultura se entrelaçam em uma festa de esperança e alegria. Esta data também é uma oportunidade para meditarmos acerca das virtudes deste que foi o último e maior dos profetas, anunciador do “Cordeiro de Deus” (Jo 1,29). São João, que é primo do Senhor, anunciou que Jesus era o salvador quando ainda estava no ventre de sua mãe, Santa Isabel, quando da visita da Virgem Maria. Naquele encontro ele exultou de alegria como nos é narrado no Evangelho de segundo Lucas: “logo que a tua saudação chegou aos meus ouvidos...” (Lc 1, 43). O testemunho da verdade foi a vocação desse grande santo mesmo diante da prisão e martírio, a mando de Herodes. Como modelo de profeta, São João nos ensina a passar pelos desertos da vida com fé e esperança, ter coragem para anunciar a Cristo denunciando as injustiças, aplainado os caminhos do Senhor por onde formos, mas sobretudo, anunciando a conversão. Batizando nas águas do rio Jordão nos lembra que o profetismo é mensagem de esperança e de vida nova.


Ao olhar para esse grande testemunho, lembro que minha primeira paróquia, como padre, foi em Pendências-RN, onde São João Batista é padroeiro. O Jordão da comunidade paroquial de Pendências é o rio Piranhas-Açu, uma referência que me exortava a seguir o modelo do excelso padroeiro, que em suas virtudes foi destacado pelo serviço e humildade, “...não sou digno de desatar a correia da sua sandália” (Jo 1, 27). A perseverança na oração e o estar junto com o povo de Deus, em suas lutas diárias, partilhando vida é o que alimentou a chama de minha fé durante a caminhada, que se estendeu para junto do Rio Potengi, quando fui reitor do Seminário de São Pedro e, por graça de Deus, participei da formação de novos anunciadores do Reino de Deus. A confiança no Senhor, mesmo diante da nossa pequenez é o que faz o servidor seguir sempre em frente, pois como anunciou São João, “é necessário que Ele cresça e eu diminua” (Jo 3, 30). Foi com esse espírito de confiança na providência divina que abracei o episcopado, tomando como lema as palavras de São Paulo: “Sei em quem acreditei” (2Tm 1,12). Assim, vivendo no meio do povo, em Caicó, Campina Grande (PB) e agora, na Arquidiocese de Natal, procurei renovar essa esperança todos os dias como sustentáculo, tanto nos momentos de alegria, quanto nos de adversidades e incompreensões.


Com São João aprendemos a passar pelos desertos da vida. No deserto, muitas vezes, somos tentados a nos perder em projetos pessoais que tendem a se colocar acima do amor aos irmãos, gerando divisão, perseguições e a aridez nos corações. É nessas horas de provação que a oração nos ensina a ouvir e anunciar a voz de Deus, assim como São João: “Eu sou a voz que clama no deserto...” (Jo 1,23). Ouvir ao Senhor que nos diz a cada momento “Coragem, sou eu, não tenhais medo” (Mt, 14, 27) é ter a consciência que o caminho da cruz é a via única para seguir a Jesus até a glória da ressureição. É preciso sempre voltar às fontes, em um processo de conversão permanente e discreto que se revela na atitude de irrigar o coração pela força da Palavra de Deus para fazer brotar nova vida e gerar novos frutos de salvação. Nesse momento que me encaminho para os últimos metros desta corrida, onde Cristo sempre foi minha meta, preparo meu espírito para prosseguir em uma nova etapa de minha missão. Enfrentando os últimos obstáculos, sinto a mesma confiança que me impulsionou na largada da corrida e que se concretiza nas mensagens de carinho e encorajamento que recebo do povo de Deus que me foi confiado. Olhando para trás e fazendo memória de tanto caminho percorrido, dou graças pelos frutos que o anúncio do Reino gerou em tantos corações; frutos de esperança, na busca pela dignidade da pessoa humana e de uma sociedade mais pacífica. Na formação pastoral das comunidades e na vida sacramental. Enfim, inspirado no grande São João Batista e fazendo uma leitura dos sinais dos nossos tempos, posso dizer, mesmo diante da nossa pequenez e de obstáculos ao longo do caminho, vale a pena testemunhar a Cristo dedicando a vida, aplainando suas veredas.