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As Universidades: um projeto de civilização

  • 11 de jun.
  • 5 min de leitura

Pe. Matias Soares

Pároco da paróquia de Santo Afonso Maria de Ligório - Conj. Mirassol - Natal

Capelão da UFRN


A Província Eclesiástica de Natal, que é constituída pela Arquidiocese de Natal e as Dioceses de Caicó e Mossoró, tem recepcionado de modo sinodal a proposta do saudoso Papa Francisco, e agora continuada pelo Papa Leão, do Pacto Educativo Global. No Brasil, a Campanha da Fraternidade de 2022, que versou sobre a “Fraternidade e a Educação”, discutiu em todas as comunidades eclesiais do nosso imenso país a temática. Já naquele idos, a partir do Setor Universidades de nossa Arquidiocese, eu defendia a emergência de uma Aliança em nosso estado pela educação; pois, sem ela, não conseguiremos promover o desenvolvimento humano integral


Os desafios são tantíssimos: muita burocracia, as polarizações políticas, pouca humildade, falta de paixão pela causa, instrumentalização dos processos, negação da contribuição que cada um e todos podem oferecer, preconceitos, ausência de foco no bem comum e na busca pela justiça social, além de outros dramas que precisam ser reconhecidos às suas superações.


Durante o Simpósio de Mossoró

(cf. https://www.arquidiocesedenatal.org.br/post/pacto-educativo-estadual-promove-simp%C3%B3sio-sobre-o-protagonismo-feminino-na-educação), realizado no último dia dois de junho, uma das conferências foi feita pela Magnífica Reitora da Universidade Estadual do Rio Grande do Norte - UERN, a professora Cícilia Maia. Com a temática da mulher e o seu protagonismo no ambiente universitário, a conferencista iniciou a sua prática trazendo uma afirmação: “A universidade é um projeto de civilização”.


Daqui, já somos chamados a pensar este lugar como espaço de desenvolvimento humano, integração e protagonismo de todos os sujeitos sociais ali envolvidos. No ensejo, o desenrolar da fala foi focado no papel da mulher. Foi excelente. Sem dúvida, uma das grandes contribuições que as universidades existentes em nosso território potiguar podem dar é essa elucidação de um projeto civilizatório que nos leve a uma maior consciência da urgência de uma educação integral e inclusiva para todos os norte-rio-grandenses.


A Igreja deseja oferecer a sua contribuição, sendo promotora do diálogo e do convite à participação de todas as Instituições, que desejam ser cooperadoras desta Aliança Educativa. A Província Eclesiástica de Natal, através das suas três Arqui(Dioceses), pode favorecer essa ampla rede de envolvimento. Não podemos mais retardar. Temos uma grande responsabilidade, que não pode ser adiada por causa das apatias de alguns. Trabalhemos com quem quer e tem causas na vida.


Na Universidade considerada como um projeto de civilização, nos deparamos com as possibilidades ‘poliédricas’. Existem interfaces existenciais e estruturais, principalmente nas universidades públicas. O regime de cotas possibilitou ainda mais essas condições, que porta consigo ainda muitos desafios para concretização de políticas públicas, que nos leve a uma nova ordem sistêmica mais justa e igualitária. Neste sentido, os propósitos do Pacto Educativo Estadual podem ser um caminho de esperança. O Rio Grande do Norte não pode deixar de apoiar, através das suas instituições públicas, privadas e do terceiro setor, esta nobilíssima causa em prol da educação integral, inclusiva e que contemple todas as faixas etárias. Estamos longe das possibilidades que o nosso estado tem para avançar na conquista deste direito fundamental. A aliança educativa é mais do que o contrato social, que tem ainda um Leviatã como único responsável. Essa mentalidade está superada e é perversa, principalmente quando é oriunda de quem só visa o poder por ele mesmo. Esse tipo de política não está preocupada com a promoção do bem comum. Urge uma política que “torne possível o desenvolvimento duma comunidade capaz de realizar a fraternidade a partir de povos e nações que vivam a amizade social. A política colocada ao serviço do verdadeiro bem comum. Mas hoje, infelizmente, muitas vezes a política assume formas que dificultam o caminho para um mundo diferente” (cf. Fratelli Tutti, 154).


São John Henry Newman - copatrono da educação -, na sua clássica obra, “a idéia de uma universidade”, sintetiza a ‘Ideia de Universidade’ afirmando que “trata-se de um lugar de ensino do conhecimento universal. Isso implica que seu objetivo é, por um lado, intelectual, não moral; e, por outro, que ele gira em torno da difusão e ampliação do conhecimento (cf. Pág. 9). De modo mais elaborado, em outra significativa obra, o mesmo Santo Dr. faz uma belíssima descrição do que seja a Universidade:

“A Universidade é um local de encontro, para onde os estudantes confluem vindos de todos os lugares e para todo tipo de conhecimento”. Continua afirmando que “na natureza das coisas, a grandeza e unidade andam juntas, e a excelência implica em um centro. E tal, pela terceira ou quarta vez, é uma Universidade... Lá é o lugar onde mil escolas fazem contribuições, onde o intelecto pode seguramente viajar e especular, certo de encontrar seu igual em alguma atividade rival, e seu juiz no tribunal da verdade. É um lugar onde a investigação incentivada, e as descobertas verificadas e aperfeiçoadas, a precipitação faz-se inócua, e o erro é exposto, pelo combate de intelecto contra intelecto e conhecimento contra conhecimento. É o lugar onde o professor se torna eloquente, e é um missionário e pregador, exibindo sua ciência em sua forma mais completa bem-sucedida, colocando-a adiante com o fervor do entusiasmo, e estimulando o seu amor a ela nos corações de seus ouvintes. É o lugar onde o catequista faz boa a terra por onde passa, trilhando o dia a dia na verdade para a memória preparada, e inculcando-a na razão que se expande. É um lugar que ganha a admiração do jovem pela sua fama, inflama as afeições da meia-idade por sua beleza, e une a fidelidade do velho pelas suas interrelações. É um lugar de sabedoria, uma luz do mundo, um guia da fé, é a Alma Mater da nova geração” (cf. J. H. Newman. “Origem e Progresso das Universidades”, Pág. 23).


Na construção reflexiva e nas aplicações do Pacto Educativo Estadual, uma das nossas preocupações é fomentar o reconhecimento e o valor das universidades em todo o processo de construção e aplicação das projeções do Pacto. No ensino, na pesquisa e, ainda mais, com a extensão, gostaríamos de contar afetiva e efetivamente com o apoio de todas as universidades - públicas e privadas -, como outrossim, os Institutos - estadual e federal - na implementação dos princípios do Pacto Educativo Global. Em nossos dias, também estamos já em fase de discussão à recepção do Plano Nacional de Educação - PNE. Todos os atores sociais podem fazer parte desta luta. É um movimento de ampla cooperação em prol da educação do nosso estado. Ninguém pode ficar de fora. Vale deixar o convite para que todos os candidatos que almejam cargos políticos, somem conosco nesta iniciativa. Conheçam as propostas e o que esta Aliança representa ao bem público dos nossos conterrâneos. Assim o seja!


Pe. Matias Soares

Pároco da Paróquia de Santo Afonso Maria de Ligório

Natal-RN

Capelão da UFRN

 
 
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