A Comunhão: o Sacramento da Comunidade


Por Pe. Matias Soares Pároco da Paróquia de Santo Afonso Maria de Ligório - Mirassol - Natal


Num contexto em que estamos sendo convocados pelo Papa Francisco para fazer com que a “sinodalidade seja o rosto da Igreja do terceiro milênio’, convém uma reflexão sobre esta expressão do – filósofo e teólogo – Romano Guardini, que fala da “comunhão como sacramento da comunidade” (cf. R. Guardini. “La realtà della Chiesa”, pág. 25). O teólogo tem um estilo semelhante ao dos padres da Igreja, ao tratar de questões tão importantes com uma direção espiritual, pastoral e extremamente sintonizadas com a cultura contemporânea.


A espiritualidade de comunhão sempre foi um dos estilos da dinâmica da Igreja, já que dentre uma das suas qualidades está a sua ‘unicidade’: Ela é Una! Mas trazendo a fundamentação teológica, a partir da própria realidade trinitária, que é composta por três Pessoas de uma única substância. Como fundamento da fé acolhida, testemunhada e vivida de todo o povo de Deus, será também a base da oração sacerdotal de Jesus (cf. Jo 17) e a força carismática de todas as comunidades eclesiais, desde Pentecostes (cf. At 2). Temos que pensar a ontologia da Igreja, considerando esses pressupostos da fé.


Essa comunhão não elimina as diferenças, mas as pressupõe. O espírito de comunhão sempre teve desafios a serem enfrentados: o orgulho, a ambição, o poder, o ódio, a vingança etc, que são sempre sinais do pecado das origens existente em cada um de nós. O mundo que eclipsa Deus das suas construções culturais, não suporta mais essa categoria nas suas reflexões e reconstruções de novas ordens sistêmicas. A aceitação dada à religião, não é mais protagonizada pelo Deus revelado por Jesus Cristo. O pós-moderno aceita sim, em muitos contextos sociais a narrativa religiosa; porém, com a configuração subjetivista de um deus que é adequado às minhas vontades e anseios. Neste sentido, os grandes maestros da suspeita, S. Freud, F. Nietzche, K. Marx e, nessa linha, um outro nem sempre citado, que é L. Feuerbach, quando afirma que “deus é uma criação projetada do homem”. Há nestes autores uma negação objetiva de Deus como uma realidade a ser reconhecida culturalmente. Essa inventiva já tinha sido teoricamente organizada na ‘revolução copernicana’, culminada em Kant, com a substituição definitiva da metafísica clássica pela teoria do conhecimento, que tornará o ‘humano’ como medida absoluta do que poderá formalmente ser considerado como verdade.


O liberalismo moderno também estará como uma das marcas destas novas motivações do individualismo que renega o outro e, às vezes até, violenta o outro. Entra em cena a competição. A ditadura da eficiência, do êxito e do mérito. Essas concepções tomam forma também na vida das comunidades eclesiais. A teologia do sacramento da ordem, que patrocina três graus de hierarquia – diaconato, presbiterato e episcopado - leva a uma tomada de posição por carreirismos eclesiásticos, mesmo sendo uma estrutura necessária à própria organização da comunidade, quando é assumido com total ‘espírito de serviço’, tornar-se-á instrumento para que o mundanismo espiritual esteja acontecendo nas entranhas da Igreja.


A proposta de uma metodologia nova, com um novo jeito de ser e atuar da Igreja, é uma das questões mais lúcidas lançadas pelo magistério e a ação pastoral do Papa Francisco. Num mundo marcado culturalmente e existencialmente pelo individualismo desumano e narcisístico, fomentar a espiritualidade da comunhão é um grande testemunho para os que estão na Igreja e para o mundo. Quando é chamada em causa a urgência da ‘cultura do encontro’, o que se tem em vista é a promoção da sociedade aberta (cf. FT, cap. 6), onde o que é imperioso é ‘a fraternidade e a amizade social’. As ideologias absolutistas, que teimam em universalizar o ‘eu’ individual, ou coletivo, em detrimento do ‘tu’, desqualificando o ‘nós’, não podem determinar as relações sociais. Quando o fazem, potencializam a violência, seja ela física, verbal ou simbólica.


Por fim, a teologia sobre a sinodalidade e o seu exercício pode fortalecer a própria vida da Igreja, neste momento de tantas incertezas da história da humanidade, como também preencher os corações sequelados pelos solavancos relacionais de todos aqueles que têm a missão de gerar a espiritualidade da comunhão. Assim o seja!