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Leitores
nas celebrações litúrgicas
INTRODUÇÃO
À medida
em que foi se firmando ao longo da caminhada, a partir de 1997, a Pastoral
da Comunicação da Arquidiocese de Natal foi incorporando
e assumindo funções as mais diversas, todas, porém,
ligadas ao ato de comunicar de todos os que assumem funções
na Igreja. O crescimento do trabalho exigiu, também, da equipe
arquidiocesana da PASCOM, mais capacitação, mais reflexão
sobre a missão que abraçou e, conseqüentemente, a
produção de textos específicos para suprir as necessidades
das comunidades paroquiais e seus agentes pastorais e, assim, atender
às solicitações de formação.
O Curso para Leitores da Missa foi uma dessas atividades que surgiram
a partir das solicitações e necessidades dos agentes pastorais.
Ciente de sua missão no sentido de melhorar a comunicação
no interior da Igreja, proporcionando aos agentes oportunidades de comunhão
e capacitação, a PASCOM assumiu o compromisso de ministrar
esses cursos. Para que a formação não fique apenas
na transmissão verbal do conteúdo, produziu-se apostila
para cada um dos participantes. Este material não é apenas
para comprovar o conteúdo repassado nem para confirmar a presença
dos cursos, mas, e principalmente, para que o agente pastoral possa
ler o que ouviu oralmente, reler, sempre que oportuno, e estudar em
grupos, sempre que necessário, além de servir com subsídio
na hora de repassar o Curso para outras pessoas que atuam na liturgia.
I –
LEITORADO: UM MINISTÉRIO
De acordo com o Pe. Serginho Valle, sjc, no livro Autores da Celebração
Litúrgica o leitor é “um ministro e, assim sendo,
ele tem um ministério. É um ministério antigo na
Igreja, chamado de Leitorado, que era dado aos candidatos ao sacerdócio.
Depois do Concílio Vaticano II, esse ministério continuou
sendo obrigatório aos candidatos ao sacerdócio, mas com
uma alteração: pode e deve ser dado a todos aqueles que
fazem leituras nas celebrações litúrgicas”.
Portanto, ler, nas celebrações litúrgicas, requer
muita responsabilidade por parte do ministro leitor. Afinal, ele não
está lendo qualquer texto, mas textos da Sagrada Escritura. Depois,
a assembléia merece ser respeitada, ou seja, merece ouvir uma
boa interpretação da Palavra de Deus. “Quem anuncia
a Palavra de Deus na missa está prestando um serviço.
Do mesmo modo, quem testemunha essa Palavra na vida concreta está
prestando um serviço. O anúncio é o serviço
prestado na comunidade litúrgica”. (Pe. Serginho Vale,
em Autores da Celebração Litúrgica).
No Brasil, em 1972, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil
– CNBB oficializou o Ministério para Leitores. Em 1999,
na 37ª Assembléia Geral dos Bispos, foi aprovado o Documento
Missão e Ministério dos cristãos leigos.
Na verdade, o Concílio Vaticano II, através da Constituição
Dogmática Sacrosantum Concilium, promulgada em 4 de dezembro
de 1963, deu grande impulso à vida litúrgica da Igreja.
Antes, a própria linguagem dificultava a compreensão daquilo
que era celebrado. Não raramente, por não entenderem o
latim, as pessoas terminavam por rezar o terço, durante as celebrações.
“A liturgia é o cume para onde se dirige toda a ação
da Igreja e, ao mesmo tempo, a fonte de onde brota a sua força”
(SC 10).
II –
O COMENTÁRIO
O comentário, nas missas, deve ser algo curto. Nada de comentário/sermão.
Há, inclusive, quem defenda que não há necessidade
de um comentarista nas celebrações litúrgicas.
Aristides Luís Madureira, no livro Formação para
Leitores e Comentaristas, diz: “a celebração pode
ser feita sem a presença de um comentarista, por não se
tratar de uma obrigatoriedade litúrgica, contudo, com a necessidade
em melhor acolher, animar, dinamizar a liturgia, essa função
foi, aos poucos, sendo introduzida e, hoje, podemos dizer: é
imprescindível”.
O Pe. Serginho Vale, scj, em Autores da Celebração Litúrgica,
explica quais são as funções do comentarista: “A
primeira tarefa do comentarista é animar a celebração
litúrgica. Mas não estamos falando de animação
de auditório, onde o animador tem a função de levantar
o astral das pessoas... A animação que compete ao comentarista
é sóbria e discreta. Ele acolhe todos os que vieram celebrar
com alegria e os sintoniza com a celebração. Para isso,
não usa do expediente de muita falação; apenas
sinaliza as idéias fortes que ajudarão a celebrar bem.
Fugindo dessas características, o comentarista corre o sério
risco de ser enfadonho e chato... O comentarista tem a função
de preparar a assembléia para os ritos e as liturgias das celebrações...
”
Segundo o Pe. Serginho, não compete ao comentarista:
. Fazer saudações litúrgicas ou devocionais no
início da missa.
. Fazer longos comentários que mais parecem discursos ou sermões.
. Puxar canto ou tocar algum instrumento musical.
. Comentar tudo como se fosse um locutor de rádio.
. Fazer as leituras ou o salmo responsorial.
Ele também indica as características de um bom comentarista:
. Ser discreto, objetivo, sereno e acolhedor.
III –
AS LEITURAS
Como vimos, anteriormente, as leituras, nas missas, devem ser muito
bem proclamadas. Para bem proclamar a leitura, o ministro da palavra
precisar ter alguns cuidados, mas trataremos disso mais adiante.
Por enquanto, vamos tratar, apenas do lugar do leitor, na assembléia.
Para evitar “demoras” ou “ruídos” na
liturgia, ou seja, o leitor que está sentado no final da Igreja
ou para que não fique “desfilando” em frente ao presbitério,
é interessante que ele fique próximo ao ambão (Mesa
da Palavra ou “móvel” onde deve ficar o lecionário)
e no presbitério. A Instrução Geral do Missal Romano
orienta que o lugar do leitor é no presbitério, no espaço
celebrativo em que os ministros exercem suas variadas funções.
Caso o leitor, por motivo de força maior, fique do lado contrário
ao do ambão, deverá caminhar firme (elegante, corpo reto,
sem correr) até o ambão. Ao passar em frente ao altar,
deverá fazer breve flexão de cabeça (vênia)
em respeito ao altar e ao presidente da celebração. Ao
chegar ao ambão, verificar a melhor posição do
microfone, em relação à sua altura, olhar para
a assembléia e dar início à leitura, com tranqüilidade.
Outro ponto importante a destacar é que a leitura deve ser feita
no Lecionário (livro que contém todas as leituras do ano
litúrgico, dia-a-dia). Além de ser o livro próprio
da Igreja para as leituras das missas, facilita a leitura, uma vez que
a fonte das letras é grande e há um bom espaço
entre as linhas.
IV –
A HORA DOS AVISOS
O final da missa é um momento complicado para informações.
Quando o padre diz: “por favor, sentem um pouco para ouvir os
avisos paroquiais”, logo se ouve o cochicho rolando. São
as pessoas reclamando, por terem que esperar cinco ou dez minutos, até
que acabem os intermináveis e confusos avisos.
Se forem dados apenas três avisos, muito bem elaborados, o fiel
conseguirá memorizar, pelo menos, um. Ao sair da igreja, provavelmente,
já não se lembrará dos outros dois avisos. É
tempo perdido dar mais do que três avisos. É constatado
que o fiel não se lembra do Evangelho que foi proclamado e não
se lembra de nenhuma prece dos fiéis, que foi lida na missa.
Se houver vários avisos que são imprescindíveis,
a solução é imprimir cópias em papel e distribuir
no final da missa ou afixá-los no mural.
O aviso de missa tem que levar em conta que é um texto redigido
para ser falado (código oral) por uma pessoa (emissor) e ouvido
por outras (receptores). É um texto diferente daquele que é
escrito para ser lido com os olhos (código criptografado) e compreendido
pelo intelecto.
Um aviso eficiente segue as leis do marketing: anunciar uma novidade,
despertar um interesse, mover para uma ação, ter um objetivo
alcançado. Se um aviso de missa não motiva ninguém
a participar de algum evento (retiro, encontro de formação,
visita, palestra...), o aviso foi ineficiente. Um aviso tem que levar
em conta a técnica de redação de uma notícia,
priorizando a clareza e a objetividade.
Por exemplo: A Pastoral da Catequese está com inscrições
abertas para a Primeira Eucaristia. As inscrições podem
ser feitas até o dia 20 de maio, de segunda a sexta-feira, das
8 às 12 horas, na Secretaria Paroquial. No ato da inscrição,
é exigida uma taxa de cinco reais. As aulas terão início
dia primeiro de junho.
Quem avisa – de preferência, um agente da Pastoral da Comunicação.
Uma sugestão: antes da missa, o agente da Pascom recolha todos
os avisos, faça uma seleção dos mais importantes
e dê uma redação clara e objetiva.
Quando se avisa - depois da oração pós-comunhão,
antes da bênção final; não no momento da
ação de graças.
O que se avisa - na igreja, se avisa aquilo que tem a ver com a evangelização,
com a pastoral, com a catequese, com a liturgia... O público-alvo
dos avisos são os fiéis presentes na celebração.
Desta forma, a prioridade é para os avisos que são de
interesse de coletividade. Não se deve avisar, por exemplo, uma
reunião ordinária dos membros da Pastoral da Juventude.
Este aviso só vai interessar aos vinte membros da Pastoral da
Juventude.
Leitura dos avisos
Não basta somente dar uma redação simples, objetiva
e clara aos avisos. É fundamental, também, apresentá-los
bem. Isto significa saber “entrar bem”, “ser simpático”,
“ter boa dicção” e “ter ritmo de leitura
adequado aos avisos”.
V –
O CORPO NO ESPAÇO LITÚRGICO
O nosso SER é o melhor instrumento de comunicação
do mundo. Nenhum equipamento, por mais sofisticado que seja, seria capaz
de substituir o nosso ser no processo comunicacional. Os meios são
frios, desprovidos de sentimentos e inumanos. As pessoas pensam, interagem
com as mais diversas situações, sentem e transmitem sentimentos,
têm senso crítico, amam, expressam-se e são imagens
e semelhança de Deus porque são dotados de espírito.
Quem produz comunicação são as pessoas; os meios
são meros instrumentos que ampliam e potencializam a comunicação
humana. Sozinhos eles não têm poder. O poder dos meios
de comunicação emana da intervenção da pessoa
humana: planos, projetos, descobertas de técnicas e tecnologias,
jeitos de falar, de gesticular... Por isso, ao falarmos de comunicação
na Igreja Católica, não estamos falando somente dos meios,
mas, de toda a comunicação humana. Daí a necessidade
de gerenciarmos bem a comunicação que estabelecemos corpo
a corpo com pessoas ou grupos. A comunicação interpessoal
ou grupal é presencial, tem calor humano e é afetiva.
A afetividade estava presente em toda a pedagogia de Jesus, quando Ele
estava no meio do povo. Foi assim com Zaqueu, com Lázaro e suas
irmãs, com o cego de Jericó, com as criancinhas...
O SER de cada um é concreto e abstrato. Concreto porque é
visualizável, palpável e materializado. Abstrato porque
é composto de sentimentos, emoções, manifestações
espirituais, pensamentos, memórias, inteligências e capacidade
de criar. Ao comunicarmo-nos devemos agir combinando o nosso ser concreto
com o ser abstrato. Quanto mais conseguirmos agir assim, mais aperfeiçoado
será o nosso desempenho e mais qualificada será a nossa
comunicação. O equilíbrio entre o concreto e o
abstrato do nosso ser possibilita alcançarmos os objetivos desejados
no ato comunicacional.
O corpo:
O corpo é a manifestação concreta do SER, a exteriorização
do que somos e o cartão de visita; é a morada do espírito,
da essência humana e o sacrário da mente (inteligências,
memória, capacidade de criar). Uma morada boa deve ser iluminada,
limpa, bem asseada, ventilada, confortável e em constantes reparos
para se manter sempre renovada. Ninguém se sente bem numa morada
desconfortável, suja, mal cuidada, escura, sem ventilação
e deteriorada. O corpo deve estar sempre bem cuidado, asseado, são
e em forma. A saúde do corpo é importante para a saúde
do espírito, assim como a saúde do espírito é
importante para a saúde do corpo. Um não pode viver dissociado
do outro. Uma das coisas mais importantes para a vitalidade do corpo
e do espírito é estar sempre aberto a situações
novas: mente aberta. Quem se fecha às coisas novas envelhece
e se deixa ultrapassar. Cada pessoa deve ter seus princípios
e sua identidade, porém, adequando-os a cada contexto, a cada
espaço e a cada tempo.
O Ocidente desenvolveu uma cultura marcada pelo divórcio entre
o corpo e o espírito, como se estes fossem “departamentos
autônomos entre si’. Essa mentalidade ficou impregnada na
religião, quando o corpo passa a ser considerado empecilho para
a salvação da alma. Originou-se, assim, uma espiritualidade
desencarnada (desligada da vida), cômoda desculpa para os que
apostam numa religião sem compromisso com as realidades humanas
(sociais, políticas, científicas, históricas).
A dicotomia entre corpo espírito, na cultura ocidental, é
perceptível até nas festas dos nossos padroeiros, onde
o profano e o sagrado, não raras vezes, antagonizam-se. Ora,
esse procedimento é inaceitável do ponto de vista cristão.
Negar o corpo é negar o mistério da Encarnação
de Deus na pessoa de Jesus Cristo, “verdadeiro Deus e verdadeiro
homem”. O que nos diz o Prólogo do Evangelho de São
João? Encarnando-se, Deus revelou-se plenamente aos homens e
mulheres de toda a humanidade, comunicando a sua Boa Nova através
dos gestos, da fala, das inteligências, das emoções
(indignação, compaixão, medo, choro), ou melhor,
do corpo.
Para que
o corpo comunique bem, precisa:
. Estar livre das
tensões – Desinibir e naturalizar os movimentos do corpo,
comunicando através de gestos equilibrados. As tensões
vêm da insegurança, do mau humor, da constante vigilância
do poder, do policiamento para mascarar as deficiências e não
admiti-las para superá-las, do estresse provocado pelo trabalho
excessivo em detrimento do lazer.
. Ser bem colocado
em eixo – para que tenha presença marcante no ambiente,
numa postura de ânimo e firmeza:
. Ombros levantados;
. Tórax aberto (peito para frente. Ele faz parte da nossa caixa
de ressonância);
. Cabeça erguida, olhando para todos os lados, quando estiver
comunicando em público, em movimento sóbrios e equilibrados;
. Mãos e braços que se movimentam livres e harmônicos.
No caso dos proclamadores da Palavra e comentaristas, não há
necessidade de muitos movimentos com os braços. Porém,
estes devem estar relaxados.
. Pernas e pés firmes e apoiados.
. “Inteligir”
(conscientizar), o mais possível, todos os gestos - para que
sejam expressão consciente e voluntária, no contexto da
comunicação que se quer fazer. A comunicação
gestual é feita de movimentos soltos, harmônicos e tranqüilos,
combinando a fala do corpo com a fala da mente e a oralidade;
. Valorizar a comunicação
facial – toda a região que está acima dos olhos
tem forte poder de comunicação. O bom comunicador trabalha
com a expressão facial, interpretando o significado do que fala
com os músculos do rosto. Olhar olho no olho no momento da comunicação
interpessoal ou grupal é fundamental para chamar a atenção,
envolver os ouvintes e engajá-los no que estamos dizendo. Muitas
platéias se dispersam por falta de comunicação
gestual e facial dos expositores. A fala sem o auxílio destes
recursos se torna monótona. Jesus Cristo conseguia arrebanhar
multidões que O ouviam o dia inteiro, a ponto de escutá-lo
com fome, no final de uma tarde. Sua comunicação atraía;
. Utilizar as mãos
– como importante instrumento de comunicação, no
auxílio da fala. Há comunicadores confusos na hora de
falar em público porque não sabem o que devem fazer com
as mãos. Ao invés de utilizarem-nas no reforço
do que está sendo dito, atrapalham-se em gestos desconexos em
relação ao ato da comunicação: colocando
as mãos nos bolsos, apertando-as umas nas outras ou usando muletas
para ocupá-las. Passam a impressão de que as mãos
estão atrapalhando. Quase sugerem a amputação.
Esse é o tipo do comunicador “maneta”, embora possua
as duas mãos.
No caso dos leitores, é aconselhável que as mãos
fiquem sobre o texto. Quando for olhar para a assembléia, coloque
o dedo indicador sobre o texto, evitando, assim, perder-se na leitura.
.Os olhos –
devem estar sempre atentos à leitura. Nos pontos finais, ou seja,
nas pausas, olhar para a assembléia. Evite olhar apenas para
um dos lados. Caso tenha dificuldades de olhar para a assembléia,
no meio da leitura, faça isto no início, quando estiver
dizendo “Leitura do Livro do Profeta Isaías”(por
exemplo) e no final, no “Palavra do Senhor”.
. Cuidar da aparência
– cabelos penteados (quem ainda os possui), barba bem feita (ou
bem arrumada e asseada, para os que a usam), fossas nasais limpas (inclusive,
para facilitar a respiração), ouvidos higienizados, roupa
adequada ao nível social do ambiente (limpas, bem passadas, e
devidamente arrumadas sobre o corpo – gola, botões etc).
Isso é sinal de auto-estima.
VI –
A FUNÇÃO EVANGELIZADORA DO LEITOR
Toda atividade de evangelização é, também,
atividade de comunicação. Isto quer dizer que tudo o que
fazemos na Igreja exige comunicabilidade. A celebração
eucarística é o ponto mais alto da comunicação,
pois é o momento da comunhão, do encontro com Jesus Eucarístico
e com os irmãos e irmãs. Só existe comunhão,
quando há profunda comunicação dos fiéis,
entre si, e destes com Deus. Somos uma comunidade comunicativa, como
um corpo feito de partes que se comunicam e formam um todo harmonioso
e integrado: o Corpo Místico de Cristo.
O Rito da Palavra, ou seja, o momento das leituras bíblicas,
na missa, é um momento especial. Toda a assembléia está
reunida para escutar e se alimentar da Palavra de Deus. Por isso, precisa
ouvi-la, entendê-la, acolhê-la em seu coração,
para praticá-la quando volta ao cotidiano. A celebração
eucarística tem um sentido coletivo, pois a Igreja de Jesus Cristo
é profundamente comunitária: é a Igreja da fração
do pão, do “comer juntos”, como Jesus fez tantas
vezes com os seus discípulos, instituindo a Eucaristia, na última
ceia. A escuta da leitura também é um ato coletivo, na
missa.
Diante das reflexões acima, podemos perceber que a função
do(a) leitor(a) é muito especial. Ele(a) tem a missão
de atualizar a força com que a Palavra foi pregada no passado,
atualizando o seu significado, para a escuta e a compreensão
de toda a assembléia, no presente. Sendo assim, há alguns
critérios que ajudam a definir o perfil de um leitor:
1. Que saiba ler
corretamente: isso não significa que seja uma pessoa formada
na universidade. Existe muita gente que estudou muito, mas que não
desenvolveu suficientemente as habilidades de leitura corrente. Portanto,
a leitura precisa ser fluente, bem pontuada, comunicante.
2. Que tenha postura diante da assembléia: não basta saber
ler. A leitura da missa é uma leitura pública, presencial.
A postura correta, no eixo, coloca o corpo do leitor em harmonia. É
preciso trabalhar todo o ser – conscientemente: corpo, mente e
espírito – para alcançar a boa comunicação
com a assembléia, facilitando o entendimento da mensagem contida
na Palavra.
3. Que estabeleça relação com a assembléia:
através do olhar, a assembléia se sentirá engajada
na comunicação que o leitor está fazendo. O leitor
que olha somente para o papel, como se estivesse lendo para si mesmo,
acaba deixando a assembléia solta, evasiva, dispersa, descomprometida
com o ato da proclamação da Palavra.
4. Que creia e esteja cheia da Palavra: quem lê nas missas, deve
ser o primeiro leitor e conhecedor da Palavra de Deus. Por isso, é
importante se preparar em casa, ler várias vezes, entender a
mensagem bíblica da leitura, encher-se de Deus e, como diz a
leitora Maria Emília, da Paróquia de Santo Afonso, em
Mirassol – Natal, “rezar a Palavra”.
Etapas da
leitura
Preparar-se:
. Ler o texto várias vezes
. Procurar entender e internalizar a mensagem
. Tirar dúvidas – antes de chegar o momento da leitura,
verificar se não há alguma palavra ou termo desconhecido,
procurando o significado ou a pronúncia correta.
Entrar bem:
. Em algumas igrejas, os leitores já ficam sentados perto do
altar. Noutras, ficam junto com a assembléia. Em todos os casos,
é necessário cuidar da postura, desde o momento em que
se levanta e caminha para o ambão.
. Quando chegar ao ambão, ponha-se em eixo e olhe brevemente
para a assembléia, antes de baixar os olhos para começar
a proclamação da leitura.
. Coloque-se em função da assembléia. É
com ela que você vai se comunicar.
Proclamar com desembaraço:
. Sua leitura deve ser tão natural, que pareça não
estar lendo, mas falando expressivamente o texto.
. Dê ênfase às passagens mais fortes, como se as
sublinhasse com uma pronúncia enfática.
. Cuide para que a velocidade da leitura – ritmo vocal –
tenha uma constância e seja harmônica.
. Mesmo usando o microfone, projete sua voz, para que a sua voz se torne
audível.
. Cuidado para pronunciar todos os fonemas das palavras, de forma que
todos compreendam o que você está lendo.
. Quando for falar, use todos os recursos do seu aparelho fonador: língua,
dentes, lábios, maxilar, palato mole, palato duro.
Espiritualidade
e mística do(a) leitor(a):
1. Leio por missão: PROCLAMO – o leitor
sabe que, como o ministro extraordinário da sagrada comunhão,
ele é ministro da palavra. Sua missão é resgatar
a força da palavra proclamada no passado, atualizando-a na proclamação
daquele momento único. O leitor zela pela força do verbo
de Deus, esforçando-se por ser instrumento de transmissão
desta força para os outros, para toda a assembléia reunida.
2. Leio para os outros: EVANGELIZO – o leitor
tem consciência da sua missão evangelizadora específica.
Entre tantas outras ações pastorais, escolhe a leitura
como trabalho de evangelização e como realização
do seu compromisso cristão.
3. Conheço a leitura: INTERPRETO – para
interpretar a leitura, o (a) leitor(a) precisa entender o seu significado.
Por isso, deve se familiarizar com o texto e até estudá-lo.
A voz é muito importante para dar ênfase aos trechos mais
fortes do texto. A mensagem de Deus precisa chegar ao coração
das pessoas, através da boa interpretação do texto.
Interpretar é dar vida à leitura.
4. Sou audiovisual: COMUNICO – todas as pessoas
da assembléia estão olhando para você, fazendo a
leitura do seu ser. Então, todo o seu ser deve “estar claro
como uma lâmpada”, e de acordo com o que você está
proclamando. Todo o seu ser deve se colocar em função
da compreensão da leitura bíblica. Deus quer falar através
de você.
5. Creio na Palavra: TESTEMUNHO – não
basta apenas anunciar; é preciso vivenciar. Só quem vive
a Palavra, pode anunciá-la com autoridade e convicção.
Fora do ambão, você precisa continuar a sua missão
evangelizadora, dando testemunho da palavra no cotidiano da sua comunidade:
em casa, com os vizinhos, os amigos...
VII –
O USO DO MICROFONE
O microfone é um instrumento de comunicação fundamental
em nossos dias. Ele amplia a nossa voz, permitindo que falemos para
um grande grupo como se estivéssemos falando para um pequeno
público à nossa frente. Porém, é preciso
ter cuidado, não só com o microfone, mas com todo o conjunto,
isto é, a mesa e as caixas de som. Estes, se não estiverem
montados e funcionando corretamente, podem se transformar em “ruídos”,
numa celebração litúrgica, por exemplo, tirando
a atenção da assembléia.
Vamos, então, nos ater ao “microfone”. Para começo
de conversa, vamos conhecer os tipos de microfones:
01) De lapela (multidirecional): capta sons ao seu redor. Fica preso
à roupa, possibilitando a liberdade de movimento. Alguns especialistas
desaconselham o uso deste microfone para o presbitério, pois,
como ele capta sons ao seu redor, pode provocar microfonia, por causa
das caixas de som.
02) De pedestal: é o mais comum e tem potências variadas:
. Unidirecional: capta o som apenas na direção central
e deve ficar mais próximo da boca.
. Tridimensional: mais potente capta o som em todas as direções.
Deve ser mantido a uma distância de 10 a 15 cm da boca.
Há, também, o microfone de mesa, utilizado para discursos
sentados, apoiado sobre uma mesa, numa haste, flexível, que possibilita
regulagem da distância e da altura. Deve-se ajustar antes de começar
a falar. Não se deve segura-lo, para não transparecer
tensão e nervosismo.
Outra recomendação: atentar para a sua postura corporal,
evitando ficar curvado sobre a mesa.
Para que o microfone,
não se torne um ruído, na celebração ou
em qualquer outro lugar, é importante ter alguns cuidados:
1. Posição: sentado ou de pé, procurar ficar bem
equilibrado, descansado e calmo.
2. Distância: com um microfone bom, a boca deve ficar a uns 20
centímetros distante, nunca de lado ou de meio perfil. Não
mexer a cabeça, caso esteja falando com o microfone preso a pedestal.
3. Prova de nível: nunca dar tapinhas, arranhar ou soprar.
4. Evitar arrastar o microfone, tossir ou espirrar.
5. Como falar:
. Falar em tom coloquial, como quem conversa com alguém;
. Ser íntimo, estar falando com uma pessoa, um amigo;
. A voz deve ter presença, corpo, calor, plenitude;
. Respirar corretamente, pelo nariz, suave e silenciosamente;
. Colocar bem a voz, para sair fácil, natural, sem fingir.
6. Evitar ruídos de papel, das mãos, da boca, da respiração.
7. Colocar os papéis de maneira vertical, ao lado do microfone
e em frente ao rosto, mas sem esconder o rosto com a folha de papel.
8. Articular bem e claramente as palavras. Mexer bem a boca, os lábios.
9. Não cair no final das palavras ou frases.
10. Ritmo: observar o tempo do discurso. Não querer dizer muito
em pouco tempo.
VIII–
TÉCNICAS DE LEITURA
Ler bem não significa apenas ter uma voz bonita, de “locutor
de FM”. Todo proclamador da Palavra de Deus deve ter a consciência
de que precisa ler bem.
Antes de tudo, é importante destacar ter noção
de como acontece a produção da voz. Para que consigamos
produzir o som através da nossa voz, recorremos a vários
órgãos do nosso corpo, que trabalham conjuntamente para
viabilizar este processo. São eles: o aparelho respiratório,
a laringe, as pregas vocais, os ressonadores (cavidade nasal, cavidade
craniana, cavidade toráxica, cavidade bucal e a faringe), os
articuladores (língua, lábios, palato duro, palato mole,
dentes e mandíbula). A produção do som acontece
quando o ar ao ser expirado, passa pelas pregas vocais, fazendo-as vibrar.
Neste momento, entram em ação os articuladores, cuja função,
neste contexto, é levar o som para as cavidades de ressonância.
Outro ponto importante é a respiração. Para uma
boa projeção da voz, na hora de falar em público,
ler ou cantar, é necessário observar o controle da respiração.
Para uma respiração correta, devemos estar numa postura
adequada, pois a postura e a respiração andam juntas.
A inspiração (entrada do ar) deve ser sempre pelo nariz,
pois este funciona como um filtro de ar. Então, devemos inspirar
pelo nariz e canalizarmos o ar em direção ao abdômen
(como se estivéssemos enchendo a barriga de ar). Depois, devemos
deixar que o ar seja expelido lentamente. É uma forma de economizarmos
o ar e termos fôlego até o final das frases.
Para ter uma boa
voz, é preciso estar atento aos componentes: voz, dicção,
articulação e entonação. Tudo isso junto,
de forma harmoniosa, nos possibilitará transmitir, com segurança,
o que precisamos. É fundamental, através de nossa fala,
transmitir credibilidade, confiança e simpatia. Ninguém
gosta, por exemplo, de ouvir alguém pigarreando o tempo todo
no microfone, tossindo, completamente rouco ou falando estridentemente.
Portanto, são fundamentais alguns cuidados com nossa voz.
Então, ler bem significa ter:
- Entusiasmo: falar com o coração. Sentir e acreditar
no que está dizendo.
- Clareza: falar devagar, pronunciando e articulando de modo inteligente.
Não engolir, omitir, os finais das frases e nem das palavras.
Para isso, abra bem a boca e faça muitos exercícios de
leitura.
- Ênfase: dar a força de expressão necessária
para a palavra ou a frase. A ênfase é a chave para levar
ao significado do que está escrito. Sem a ênfase, a palavra
fica apagada, sem graça.
- Modulação e entonação: é a variedade
na inflexão do tom da voz. É preciso saber entonar as
frases interrogativas, imperativas e exclamativas.
- Naturalidade: a voz deve sair livre, sem esforço.
- Ritmo: regulado, sem atropelar e sem ficar monótono. O próprio
texto vai indicando onde se deve mudar o ritmo.
Para ter uma voz com boa dicção, entonação,
ritmo, modulação, articulação, é
importante fazer exercícios, diariamente. Abaixo, alguns exemplos
de exercícios de dicção:
Inspire pelo nariz – pausa – expire lentamente pela boca
(repetir 5 vezes)
Encha a boca de ar e exploda com o som de P
Assobie
Faça caretas colocando a língua fora da boca.
Vibre a ponta da língua – trim, trim, trim.
Pronuncie forçando a musculatura facial – a, i, u –
a, i, u – a, i, u.
Repita em voz alta os fonemas, forçando a consoante final
Agora, conheça
alguns exemplos de exercícios para corrigir problemas de articulação:
baR – baR – baR deR- deR – deR muR – muR –
muR
feR - feR - feR joR – joR – joR quiR- quiR - quiR
Terê.. Terê.. Terê... Trê....Trê.. Trê
Fara... Fara... Fara... Fra....Fra...Fra
Coró.. Coró.. Coró.. Cró... Cró...
Bla – ble – bli – blo – blu
Travalínguas
também são ótimos para melhorarmos a articulação.
Por exemplo:
Num jarro há uma aranha. / Tanto a aranha arranha o jarro como
o jarro arranha a aranha. / Se a aranha arranha a rã, se a rã
arranha a aranha, como a aranha arranha a rã?/ Como a rã
arranha a aranha?
Dê o trigo
para os três tigres no prato de prata.
Paga o pato, dorme
o gato, foge o rato, paga o gato, dorme o rato, foge o pato, paga o
rato, dorme o pato, foge o gato.
Olha o sapo dentro
do saco, o saco com o sapo dentro, o sapo batendo papo e o papo soltando
vento.
O tempo perguntou
ao tempo, quanto tempo o tempo tem. O tempo respondeu pro tempo, que
o tempo tem tanto tempo, quanto tempo o tempo tem.
Além dos
exercícios acima, que só surtirão efeito se forem
realizados sempre, é importante outros cuidados com a voz:
01) Beber bastante água em temperatura natural, para manter as
pregas vocais hidratadas.
02) Comer maçã, pois possui propriedades que auxiliam
na limpeza da boca e da faringe.
03) Beber suco de frutas, especialmente das cítricas.
04) Evitar roupas apertadas, principalmente nas regiões do abdômen,
cintura, peito e pescoço, pois isso poderá dificultar
a respiração.
05) Não dormir de estômago cheio, pois pode provocar refluxo
gastresofágico, que é prejudicial às pregas vocais.
06) Evitar choques bruscos de temperatura.
07) Evitar bebidas geladas.
PRODUÇÃO:
. Francisco Morais – Presidente da União Cristã
Brasileira de Comunicação Social – UCBC e colaborador
da Pastoral da Comunicação, na Arquidiocese de Natal
. Diác. José Bezerra e Cacilda Medeiros – Equipe
de Articulação da Pastoral da Comunicação,
na Arquidiocese de Natal/RN.
Telefone: (84) 3615-2800
E-mail: pascom@arquidiocesedenatal.org.br
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
MACHADO, Sirley e VELASE, Rui. Apostila Comunicação
e Expressão Oral, Curitiba/PR.
MADUREIRA, Aristides Luís. Formação para
Leitores e Comentaristas. Editora A Partilha, Uberlândia-MG,
2006
MIKA, Lourenço. O Aviso na Missa. www.maikol.com.br.
Mini-curso Básico de Técnica Vocal. www.mvhp.com.br/canto7.htm,
acesso em 01/09/2006
VALLE, Serginho (Pe.). Autores da Celebração Litúrgica.
Edições Loyola, São Paulo, 1999
Natal-RN,
setembro de 2006 (reorganização da apostila)
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