Coordenação: missão que se realiza em grupo

1. COORDENAÇÃO: UM SERVIÇO QUE NASCE DA VIDA EM COMUNIDADE

O ser humano é essencialmente comunitário, social e grupal. O seu primeiro grupo é a família. Mesmo antes de nascer, a criança já recebe todas as influências da família. Pode ser carinho, harmonia paz, bons nutrientes que chegam através da alimentação da mãe e estímulos positivos variados. Mas a criança pode receber: também: rejeição, agressão, medo, álcool, drogas e tantas vibrações negativas, tudo isto através da mãe.
Depois a criança nasce e se depara, cara a cara, com a sua família. Nos primeiros anos de vida, ela vai formando a sua consciência, suas opiniões, seu jeito de encarar a si mesma, a vida e o mundo, de acordo com os estímulos e o comportamento da família. São coisas que vão ficar para o resto da vida na sua mente e na sua formação. Outras coisas vão se modificando ou aperfeiçoando na relação com outros grupos: escola, amigos, trabalho. A base da formação humana é a família. É nela que o ser humano passa a maior parte da sua vida e constrói os laços afetivos mais duradouros.
Na família, na escola, no grupo de amigos, no time de futebol, na Igreja e no trabalho, à medida que os grupos sociais vão ficando maiores, mais complexos, aparece a necessidade de uma coordenação, de uma pessoa ou de Uma equipe capazes de co-ordenar, de pôr em ordem o funcionamento daquela organização social. Isso acontece nos espaços formais e informais, em qualquer ambiente onde exista gente se relacionando. Surge, então, o líder, aquele que se sobressai na hora de expor idéias, de sugerir, de articular e motivar o grupo para alcançar seus objetivos.
A pessoa que tem capacidade de liderança, geralmente, adquire a simpatia de todos ou da maioria, e, mais cedo ou mais tarde, acaba sendo apontada como coordenadora ou coordenador. O coordenador é uma pessoa que recebe poder dos outros membros do grupo. A coordenação, portanto, nasce da vida em grupo, do relacionamento entre as pessoas. Coordenar é um ato social, comunitário, e, portanto, político, no sentido mais amplo do termo. A qualidade do coordenador depende, em grande parte, da formação que a pessoa recebeu na família. Vejamos alguns tipos de coordenador:
1. Papagaio – é aquele que fala muito e que não dá a palavra aos outros nas reuniões e encontros. Suas reuniões viram falações vazias e reflexões que não levam a uma ação. É pouco prático e não faz nada de concreto. As reuniões se tornam sem objetivos: reunião por reunião: blá-blá-blá. Por isso, não planeja e o grupo fica solto, em conversas dispersas, pois não há nada que desperte interesse. O resultado deste tipo de coordenação é a desmotivação do grupo por falta de perspectiva ou de algo concreto para fazer. Aos poucos, as pessoas deixam de participar e o grupo se acaba.

2. Avestruz – é o que foge dos problemas e não tem coragem de animar o grupo para resolvê-los. Dizem que, quando a avestruz avista um perigo, enterra a cabeça na areia. Assim é este tipo de coordenador: foge dos problemas, desanima antes do grupo e é medroso. Quando alguém fala que ele(a) tem a missão de coordenar, quando o grupo pede atitude, o coordenador avestruz não exerce a sua liderança. O grupo fica como ovelhas sem pastor.

3. Bicho-preguiça – É o coordenador que, quando fala, fala sem expressão, sem energia, como se estivesse falando para si mesmo. O grupo também fica solto, em conversas paralelas, pois as reuniões se tornam monótonas. Neste caso, não exerce uma presença marcante de líder. Este tipo de coordenador não inspira confiança e nem firmeza. Passa incerteza e falta de convicção. O grupo acaba se esvaziando.

4. Rei Leão – é feroz e reclama de todos. Ao invés de dividir responsabilidades, impõe tarefas ao grupo, determinando o que cada um vai fazer. As pessoas acabam não fazendo e ele acaba dando “carão”, cobrando. Torna-se antipático a todos. Neste caso, não existe planejamento coletivo, mas uma relação de atividades que ele mesmo define e quer que os outros executem. O grupo também se acaba por falta de motivação. É autoritário e mantém o grupo calado enquanto ele dita o que deve ser feito. É característico deste coordenador ter o controle de tudo: da chave, do livro de atas, do dinheiro, do computador. Ele concentra poder para manter o domínio. Desse comportamento surgem resistências, explícitas ou veladas. Ele combate tudo isso com arrogância. Ninguém tem chance de crescer perto de um coordenador assim. Somente os “seus” têm vez.

5. Beija-flor – é o tipo que assume tudo o que aparecer e fica sem tempo para nada. Suas reuniões são curtas, pois ele se orgulha em ter várias outras reuniões, encontros etc., naquele mesmo dia. Passa um tempinho em cada reunião. O grupo acaba sem planejamento e sem fazer nada, por causa do coordenador. Este tipo de coordenador é meio festivo, abraça todo mundo e vai embora. Ele está mais preocupado em se manter coordenador do que em fazer alguma coisa, concretamente.

6. Abelha-rainha – Não faz nada. Apenas espera que o grupo trabalhe. É um coordenador de enfeite e todos trabalham para satisfazer os interesses de uma só pessoa. Neste caso, se estabelece uma espécie de bajulação. Todos trabalham em função do coordenador e não em função do bem do grupo. O coordenador torna-se o centro de tudo e concentra poder. Quando ele(a) sai, o grupo se acaba, porque não consegue caminhar com as suas próprias pernas e nem aceita uma liderança nova. Aliás, neste tipo de coordenação não surgem lideranças novas. O coordenador fica como se fosse perpétuo. Se ele sai, o grupo começa a cultivar o saudosismo, voltados para o passado, como se não houvesse mais futuro ou alguém capaz de assumir a coordenação. Na verdade, o grupo se anula e o coordenador reina, agradando a todos para ser paparicado. Estabelece-se uma relação de dependência.

7. Burro de carga – Carrega tudo nas costas. É cômodo para o grupo se livrar do trabalho, deixando que o coordenador assuma tudo sozinho. É o tipo que se estressa por causa da sobrecarga de trabalho. Reclama muito, mas, ao invés de avaliar com o grupo e motivá-lo a assumir responsabilidades, coletivamente, faz por quem não fez. Há um certo paternalismo neste comportamento. Quando o burro de carga sai do grupo, há duas saídas: ou grupo cai ou o grupo é obrigado a descobrir novas lideranças, para não se acabar. Fazer pelos outros não é educativo. Às vezes. é bom para o coordenador que acaba virando dono do grupo.

8. Formiguinha – todo mundo sabe que formiga trabalha muito, mas não trabalha sozinha. Na hora de carregar um pedaço de folha ou um inseto morto, todas trabalham em mutirão. Elas sabem que, apenas uma formiguinha isolada seria capaz de carregar um peso 50 ou 100 vezes maior que o seu. O coordenador , neste caso, ajuda a colocar o trabalho em ordem, junto com os outros: é um CO-ORDENADOR. Um grupo sem coordenação, é um grupo fora de ordem, bagunçado.
O coordenador formiguinha é diferente de todos os outros, porque:
• Escuta mais do que fala - o coordenador prudente e sensato escuta todo mundo, antes de dar a sua opinião ou tomar decisões. Muitas vezes, quando o grupo tem opiniões divergentes, o coordenador precisa escutar os dois lados, para fazer uma terceira proposta que não privilegie um extremo e nem outro, mas que contemple os dois lados, levando o grupo à unidade, a partir do consenso. Desta forma, o coordenador pega os pontos positivos da proposta de um extremo, junta aos pontos positivos da proposta do outro extremo, e faz uma terceira proposta, incluindo valores dos dois lados. Assim, o grupo passa da divergência à convergência. O coordenador que fala demais acaba perdendo a chance de escutar os outros: as idéias novas e criativas. Quando apenas um fala o grupo empobrece.
• Anima o grupo para enfrentar desafios – o coordenador formiguinha passa positividade e confiança aos outros. Anima o grupo na hora em que as coisas parecem difíceis (falta de recursos, falta de apoio moral ao trabalho, crise de relacionamentos internos etc.). Ele conhece e sabe o que motiva e desperta interesse no seu grupo. Sabe que é preciso valorizar as pequenas coisas, mostrando que o grupo é capaz de superar qualquer barreira, quando todos se mantêm unidos. O coordenador tem sempre uma palavra de encorajamento que “convoca vontades”. Segundo o estudioso José Bernardo Toro, “convocar vontades significa convocar discursos, decisões e ações no sentido de um objetivo comum, para um ato de paixão, para um ato de escolha que contamina todo o quotidiano”. O coordenador faz com que cada um do grupo continue sempre mais apaixonado pelo trabalho. Ele não tem medo de enfrentar os desafios e os problemas, e o faz de cabeça erguida, junto com os outros: mobiliza. Mobilizar é colocar todo o grupo em movimento. Poderíamos até dizer que o coordenador é como o coração que sempre está pulsando para colocar o sangue em movimento, para que o grupo se mantenha vivo.
• Tem presença de líder – ter presença significa ser atuante, acreditar na capacidade do grupo, falar com convicção e com expressão serena e, sobretudo, passar confiança. Suas colocações empolgam porque são feitas com entusiasmo, com ânimo verdadeiro. Este tipo de coordenador passa vivacidade, dinamismo na sua comunicação com os outros e tem uma força que transborda em credibilidade perante o grupo.
• É democrático – Ao contrário de muitos tipos de líderes já citados, principalmente do Rei Leão, o coordenador formiguinha exerce liderança, sem ser usar de autoritarismo. Ele desperta interesse nos participantes, deixando que o grupo tome decisões e que cada um assuma responsabilidades. Este tipo de coordenador confia no potencial de cada pessoa. Sabe estimular e valorizar os vários dons do grupo. Ele apenas coordena, como um maestro de banda de música e, assim, os diferentes dons e habilidades se harmonizam. O comunicador formiguinha constrói a unidade respeitando e valorizando a diversidade. Ele nunca toma decisões sozinho, como se fosse dono do grupo. Se um membro do grupo ou o grupo todo tem uma idéia melhor do que a dele, ele aceita, para o bem de todos. O que vale para o coordenador formiguinha é o bem comum. Mas se o grupo está caindo na mesmice das idéias, ele leva idéias novas para discutir com o grupo e, se a maioria concorda, aprovar.
• Faz surgir lideranças novas – o líder que quer passar o resto da vida como coordenador sufoca os potenciais e os valores que o grupo tem. Desta forma, pessoas habilidosas, dinâmicas, deixam de ser valorizadas por ciúme do coordenador. O coordenador formiguinha descobre “talentos”, potenciais, dons e sente-se feliz por isso. Ele dá vez aos outros e, assim, conquista a simpatia do grupo. Quando ele sai do grupo, novas lideranças assumem o trabalho, garantindo a continuidade das ações.
• Medeia situações de conflito e de crise, com serenidade – o coordenador formiguinha sabe que em qualquer organização social, que em qualquer grupo humano, os conflitos são inevitáveis. O ciúme, o individualismo, o egoísmo, a inveja, atrapalham, permanentemente, as relações humanas. Mas este tipo de coordenador não toma partido nem por um lado e nem pelo outro. Ele fica de fora dos conflitos para ajudar a resolvê-los, reconduzindo o grupo à união. Para isso, o coordenador procura sempre manter a chama da espiritualidade acesa, em sua vida e na vida do grupo.
• Está em constante serviço – o dinamismo faz parte do cotidiano do coordenador formiguinha. Ele está sempre em constante articulação, mobilizando o grupo, em comunicação. Ele informa o grupo de tudo o que acontece, convoca para reuniões, repassa conhecimentos adquiridos em encontros e cursos etc.

MISSÃO DO COORDENADOR
1. Motivar gente para entrar no grupo – esta missão não é somente do coordenador, mas de todos do grupo. Mas ele tem uma missão especial, fazendo o convite a quem ele percebe que tem habilidade para o trabalho. Convidar significa ir ao encontro da pessoa, chamá-la pelo nome, valorizar seu dom ou sua habilidade, dizer dia, horário e local da próxima reunião. No dia da reunião deve apresentar a pessoal ao grupo, deixando-a a vontade e criando condições para o seu entrosamento com o restante das pessoas.

2. Fazer um calendário de reuniões com a participação do grupo – quem decide o dia, o horário e o local das reuniões é o próprio, em reunião. O coordenador pode até trazer uma sugestão de datas, horários e local, mas não impõe. Submete à apreciação do grupo para ser aprovado pela maioria. O grupo também decide sobre a periodicidade das reuniões (mensal, semanal, quinzenal...).

3. Fazer uma pauta de assuntos para cada reunião – tudo o que vamos fazer planejamento. O coordenador não vai para a reunião “de mãos abanando”. Ele vai preparado. É melhor que prepare a relação de assuntos com outros membros da equipe, um dia antes. Após a abertura, o coordenador expõe o “objetivo” da reunião e ler os pontos que serão discutidos, pedindo sugestões de novos assuntos ou “pontos de pauta” ao grupo.

4. Conduzir a discussão de cada ponto - aprovada a pauta, a equipe vai discutindo ponto por ponto, definindo encaminhamentos e tomando decisões, em grupo. Neste momento, o papel do coordenador é muito importante para evitar a dispersão e conduzir a discussão com objetividade. Caso contrário, as discussões se tornam infindáveis. No caso de falta de objetividade do grupo, a intervenção tranqüila do coordenador é muito importante, retomando as discussões e reconduzindo as pessoas ao tema.

5. Ajudar o grupo a tomar decisões e definir os encaminhamentos/ a planejar – não basta ficar discutindo sem nunca chegar a uma conclusão. O coordenador leva o grupo a tomar decisões e anotá-las. Neste momento, as coisas precisam ficar bem definidas: o que fazer? Como fazer? Nomes dos responsáveis para assumir as tarefas, hora, local e data da ação, etc.

6. Informa o grupo de tudo o que está acontecendo ou vai acontecer – Todas as informações que são enviadas ao coordenador, devem ser socializadas com o grupo local de comunicadores. Datas para capacitações (oficinas, cursos etc.), dias de reuniões e encontros. O coordenador “bombril” não funciona. Ele quer estar sozinho em tudo, quando poderia dividir as chances com outros membros do grupo. O material que o coordenador recebe também deve ser reproduzido, entregue ou estudado com todos do grupo.

7. Propõe coisas novas ao grupo – o coordenador é o que sai na frente e puxa os outros. Ele procura fazer mudanças, quando necessário, inovando para que o trabalho não vire rotina. Por isso, pensa, elabora, cria novidades. Ele pede, também, idéias ao grupo, às pessoas da equipe.

8. Trabalha em equipe – O coordenador/monitor não deve trabalhar sozinho. Aos poucos, ele vai descobrindo gente que vai entrando no trabalho. Quando se trabalha em equipe, as pessoas crescem. Aí surgem novas lideranças, novas cabeças pensantes, novas idéias. Você já notou que um trabalho que não tem várias cabeças que pensam em conjunto fica muito mais difícil?

9. Participa dos encontros de formação, planejamento e avaliação do SAR – o Coordenador/monitor está ligado à equipe técnica do SAR. Quando ele começa a olhar só para dentro do seu grupo, o trabalho fica sem sentido, porque se torna isolado. Nossa Igreja é uma comunidade de várias instâncias.

10. Promove dias de estudo e de repasse – quando o coordenador/monitor vai a um curso ou oficina, ao voltar, precisa repassar. Ele/ela deve estar atento a isso: convidar a pessoa e marcar um dia para repassar, ao grupo, os conteúdos que adquiriu. Outras vezes, há textos interessantes que podem ser estudados pelos grupo. Um mesmo texto pode dar vários estudos. Ao estudar os textos, os participantes devem comparar com a realidade e tirar ensinamentos para a vida do grupo.

11. Leva o grupo a avaliar o trabalho – avaliação ajuda ao grupo a perceber seus pontos fortes, o que está bom. Mas também serve para identificar os pontos fracos, o que precisa melhorar. Ao invés de causar desânimo, a avaliação deve levar o grupo a ganhar mais força e se motivar para melhorar, cada vez mais. Na avaliação, o grupo pode descobrir muitas oportunidades que estão perdendo e mudar de atitude. Perseverar torna-se palavra de ordem. O coordenador tem um papel muito importante para manter o grupo interessado e atuante. Daniel Goleman, autor do livro Inteligência Emocional, diz:

O líder é capaz de entusiasmar as pessoas através da sua força e do seu próprio entusiasmo. Ele não dá ordens nem determina coisas, mas sim, inspira. Ao articular seu ponto de vista sobre o assunto, ele é intelectual e emocionalmente estimulante. Demonstra uma firme crença nesse ponto de vista e incita as demais pessoas a perseguí-lo junto com ele. Além disso, ele se empenha em cuidar dos relacionamentos com aquele a quem lidera.

12. Cultiva a mística e a espiritualidade cristã no seu comportamento - estimulando o grupo a também fazê-lo no dia-a-dia. Assim, abre-se à oração e a conversão constante, pois é humano e precisa superar os defeitos que sempre vão aparecer, porque é humano. Aceitar-se e aceitar os outros é fundamental para o trabalho de coordenação. A paciência é fruto de uma espiritualidade madura e serena. Mas deve ser uma busca constante, pois as adversidades são muitas. Coordenar é compartilhar a cruz com Jesus Cristo, associando-se ao sofrimento que redime, que transforma e que faz ressurgir novas realidades. Coordenar é servir como Jesus serviu nas bodas de Cana; é dialogar como Jesus dialogou com a samaritana no Poço de Jacó. Coordenar é assumir um ministério na Igreja, mediante o compromisso assumido no Batismo. Coordenar é fazer tudo com amor e com dedicação a Deus, presente na dignidade de cada pessoa.

Elaboração:
Francisco das Chagas de Morais
Mestre em Estudos da Linguagem pela UFRN
Presidente da União Cristã Brasileira de Comunicação Social – UCBC.