“P” de Padres e Políticos
Por Mons. Francisco de Assis Pereira
Postulador e Arquivista da Arquidiocese
assispereira@supercabo.com.br

Embora pelo Código de Direito Canônico os clérigos sejam proibidos de assumir cargos públicos, sabemos que, historicamente, tanto no Império como na República, alguns padres tiveram atuação política relevante. Com um olhar retrospectivo sobre a nossa história centenária, constatamos também no Rio Grande do Norte a presença de sacerdotes no Congresso Nacional, na Assembleia Legislativa e em cargos do poder executivo. Limitando-nos ao século XX, queremos destacar hoje três figuras ilustres de sacerdotes que enveredaram pelos caminhos da política sem, porém, deixar de ocupar funções de primeiro plano na vida eclesiástica. Os três chegaram ao cargo mais importante da diocese como Vigários Gerais e dois governaram a diocese vacante.

O primeiro é o Mons. Alfredo Pegado Cortez, natural de Arez, que iniciou a sua vida sacerdotal, em 1899, ainda na Paraíba, antes da criação da diocese de Natal. Lá encontrou o seu conterrâneo Mons. Joaquim de Almeida que, eleito bispo do Piauí, convidou vários sacerdotes para acompanhá-lo no árduo trabalho da imensa diocese. Entre os voluntários, estava o jovem sacerdote Pe. Pegado que permaneceu no Piauí de 1906 a 1911. Por sorte, Dom Joaquim foi transferido para primeiro Bispo de Natal e o trouxe de volta. Em Natal, Mons. Pegado foi um dos mais prestimosos colaboradores dos quatro primeiros Bispos: Dom Joaquim, Dom Cabral, Dom Pereira Alves e Dom Marcolino. Usufruía da mais inteira confiança destes quatro prelados que o confirmaram como Vigário Geral e, na vacância da diocese, como Governador do Bispado. Câmara Cascudo lhe dedicou, em 1960, uma de suas Atas Diurnas, chamando-o de “cirineu do bispado” e uma das mais nobres existências que Deus doou ao Rio Grande do Norte. Mons. Pegado foi Deputado Estadual por três legislaturas, de 1918 a 1925. Faleceu em Natal, a 22 de janeiro de 1941.

Mons. João da Matha Paiva nasceu em Jardim de Angicos, no ano de 1897. Foi Reitor do Seminário, Diretor do Ateneu e se destacou na imprensa católica como Diretor dos jornais Fé e Luz e Diário de Natal. Dom Marcolino Dantas o fez seu Vigário Geral, de 1941 a 1954. Com vocação política e com licença do bispo, foi eleito Deputado Estadual em duas legislaturas, de 1935 a 1937 e de 1945 a 1950. Durante o governo de Rafael Fernandes, na qualidade de Presidente da Assembléia, assumiu várias vezes o governo nos anos de 1936 e 1937. Faleceu em Natal a 4 de junho de 1965.
O terceiro padre que exerceu atividade política foi o Mons. Walfredo Gurgel. Nascido em Caicó a 2 de dezembro de 1908, foi enviado a Roma,em 1926, para os estudos de filosofia e o doutorado em Teologia. Exerceu os seguintes cargos: Reitor do Seminário de São Pedro, Vigário de Acari e de Caicó e Diretor do Ginásio Seridoense. Criada a diocese de Caicó,o primeiro Bispo, Dom José Delgado, o nomeou Vigário Geral, cargo que ocupou também nos governos de Dom Adelino e de Dom Tavares. Foi Governador do Bispado nas vacâncias dos dois, em Caicó.

Mons. Walfredo ingressou na vida política em 1945, quando foi eleito Deputado Federal. Durante o seu mandato (1946-1950),participou da Assembleia Constituinte para a elaboração da nova Constituição, promulgada a 18 de setembro de 1946. Em 1960, foi eleito Vice-governador, renunciando, em 1962, para se candidatar a Senador. Também desta vez, renunciou ao mandato para concorrer à chapa de Governador nas eleições de 1965. Eleito, exerceu o mais alto cargo de Governador do Rio Grande do Norte, de 1966 a 1970. Mons. Walfredo, mesmo durante os seus mandatos políticos, permaneceu um sacerdote íntegro, dando testemunho de fé e de piedade. Como governador, celebrava todos os domingos às 9 horas na antiga Catedral. Faleceu em Natal, a 5 de novembro de 1971 e foi sepultado na Catedral de Sant’Ana, em Caicó.