"M" de Movimento de Natal (II)
Por Mons. Francisco de Assis Pereira
Postulador e Arquivista da Arquidiocese
assispereira@supercabo.com.br

A experiência de renovação pastoral, iniciada informalmente na diocese de Natal por um grupo de padres (eram seis), liderado pelo Pe. Eugênio Sales, começou a tomar vulto com a sua ascensão a Bispo Auxiliar, em 1954, e posteriormente, a Administrador Apostólico, em 1961, assumindo plenamente o governo diocesano. Com o alargamento das iniciativas de caráter sócio-pastoral, o conjunto dessas atividades passou a ser chamado “Movimento de Natal”. A expressão foi cunhada por Dom Tiago Cloin, bispo redentorista que, ao visitar Natal, ficou entusiasmado com o trabalho de Dom Eugênio e assim o definiu num artigo: “O Movimento de Natal é uma ação conjugada de evangelização e de ação social, e constitui, sem dúvida, a mais bem sucedida experiência pastoral de envergadura, em extensão e profundidade, realizada no Brasil”.

O Movimento teve um grande crescimento quantitativo e qualitativo nas décadas de 50 e de 60, a partir da criação em 1949 de um órgão centralizador e impulsionador: o Serviço de Assistência Rural. Em 1958, era fundada a Emissora de Educação Rural com a sua rede de escolas radiofônicas espalhadas no perímetro rural, que captavam através de rádios cativos à pilha as aulas transmitidas pela emitente central. Não era uma simples alfabetização mas uma educação de base com orientações de saúde, agricultura, direitos humanos e doutrina religiosa. Em 1964 já havia mais de mil escolas radiofônicas.

O setor de sindicalismo rural foi outra arrojada frente de atuação do SAR a partir de 1960. Em 1964 já havia 45.000 sindicalizados, reunidos na Federação dos Trabalhadores Rurais do RN.
O cooperativismo, trazido a Natal pelo 2º bispo de Natal, Dom José Pereira Alves, que criou a Cooperativa Central de Credito sob os cuidados de Ulisses de Góis, ampliou suas atividades através do SAR numa rede de 11 cooperativas de credito, e mistas de produção, entre as quais a Cooperativa de Produtores Artesanais, que coordenava e comercializava toda a produção dos artesãos e artesãs do interior. Vale apena salientar também, no setor agrícola, o grande projeto de Colonização do Vale de Punaú através da Fundação Pio XII, em convênio com o governo do Estado. Estes são apenas alguns exemplos da área social do Movimento de Natal.

No campo da pastoral, uma série de iniciativas renovadoras veio dinamizar a ação das paróquias e dos setores pastorais: a realização de 20 semanas bíblicas em toda a diocese, o planejamento anual da pastoral de conjunto, o Encontro Mensal do Clero e os curso de atualização para sacerdotes, religiosos e leigos, os cursos de preparação para o batismo, crisma e matrimonio, a criação de conselhos paroquiais e a participação ativa dos leigos na vida paroquial.

Um prelado do Vaticano descreve o Movimento de Natal como “vasta iniciativa de renovação integral cristã inspirada nas Encíclicas sociais, especialmente Mater et Magister com a colaboração entre bispos, sacerdotes, religiosos e leigos”. Um verdadeiro trabalho de Igreja que precedeu e aplicou o Concilio Vaticano II.