"I" de índios evangelizados
Por Mons. Francisco de Assis Pereira
Postulador e Arquivista da Arquidiocese
assispereira@supercabo.com.br

Quando os primeiros missionários chegaram ao Rio Grande, encontraram uma população nativa formada pelos índios potiguares, da grande família tupi, que se espalhava por todo litoral brasileiro, e os tapuias que viviam no interior e nos sertões. Os jesuítas se aproximaram com mais facilidade dos potiguares, não só porque conheciam a sua língua, mas também porque os potiguares eram mais acessíveis do que os tapuias, violentos e agressivos. Não se deve, porém, esquecer que ambos eram canibais. Os missionários aprenderam o tupi-guarani e isto facilitava o diálogo. Alguns chefes potiguares passaram a colaborar com os padres e, através deles, com as autoridades portuguesas. O mais famoso destes foi o chefe Potiguaçu, cujo nome os portugueses traduziram para Camarão Grande. No começo não foi fácil, pois Camarão fizera aliança com os piratas franceses e olhava com desconfiança para os portugueses. Graças, porém, à habilidade dos padres, tornou-se grande amigo e aliado dos jesuítas e, depois de convertido, ajudou na catequese dos outros índios. Sua preparação para o batismo durou 13 anos, concluindo com uma grande peregrinação de um grupo de índios potiguares à Serra de Ibiapaba, no Ceará, para visitar o túmulo do seu mestre e amigo padre Francisco Pinto, que morrera mártir vitimado pelos Cararijus.

Camarão residia com a suta tribo na Aldeia Velha, situada à margem esquerda do Potengi, no lugar conhecido como Outeiro do Minhoto, hoje Zona Norte da Cidade do Natal. O batismo de Camarão e de toda a sua família foi soleníssimo e se realizou na Capela de Nossa Senhora da Soledade, na Aldeia Velha, a 25 de fevereiro de 1612. Diz uma narração antiga: “Saiu ele finalmente vestido de gala, precedido de um festivo acompanhamento, levando consigo sua mulher e filhos e grande número de vassalos que o seguiam.” No mesmo dia realizou-se o casamento religioso de Camarão. Entre os filhos que se batizaram, estava um garoto de 11 anos que recebeu o nome de Antônio Felipe Camarão e se tornaria uma dos mais notáveis chefes indígenas da insurreição contra os holandeses.

Padre André de Soveral, o mártir de Cunhau, chegou ao Rio Grande em 1606, como sacerdote jesuíta em missão. Provavelmente, mais tarde, ele deixaria a Companhia de Jesus para ingressar no Clero Diocesano e assumir a Paróquia de Cunhaú. Na sua primeira missão ao Rio Grande, ele visitou uma aldeia indígena perto da Lagoa de Guaraíras, chefiada por uma índia que, ao ser batizada recebeu o nome de Antônia Potiguar. Os relatos dos jesuítas a descrevem como “um exemplo aos melhores governantes, quer no respeito dos súditos, como na paz.” Antônia recebeu festivamente os padres e, nesta visita, regulou o seu estado matrimonial com o homem que tinha escolhido e com quem já vivia.