"H" de história da Igreja antiga
Por Mons. Francisco de Assis Pereira
Postulador e Arquivista da Arquidiocese
assispereira@supercabo.com.br

As comemorações do Centenário nos levam a resgatar não só os acontecimentos dos últimos cem anos, a partir da Diocese, mas também as origens e o início da evangelização do Rio Grande do Norte. Remonta a 1534 a divisão do Brasil em capitanias hereditárias, entre as quais a do Rio Grande, habitada por índios potiguares e tapuias, que somente 63 anos depois foi efetivamente colonizada.
Na expedição do capitão-mor Mascarenhas Homem que adentrou na barra do Potengi a 25 de dezembro de 1597, vinham também quatro missionários, sendo dois franciscanos: frei Bernardino das Neves e frei João de São Miguel, e dois jesuítas: padre Francisco Lemos e padre Gaspar de Samperes. Os franciscanos logo regressaram a Pernambuco, mas os jesuítas se estabeleceram permanentemente na Capitania, iniciando a evangelização e a catequese dos índios. Eles vinham do Colégio de Olinda, fundado em 1551, verdadeiro centro de irradiação missionária para o Nordeste. Além da preparação espiritual e teológica, os missionários se especializavam em várias artes, como o padre Samperes que estudou Engenharia e foi o construtor do Forte dos Santos Reis. Também estudavam a língua brasílica, o tupi-guarani, falado pelos potiguares. A primeira residência dos jesuítas foi no Arraial, perto do Forte, onde construíram uma capela provisória. Lá celebraram a Semana Santa de 1598, sob o olhar curioso dos nativos.

Entre os missionários que por aqui passaram, destacava-se o padre Francisco Pinto, homem de Deus, profundamente inculturado nos costumes e na língua dos índios que o chamavam carinhosamente de Abaré - pai e Amanaira - senhor da chuva, pois atribuíam-lhe poderes milagrosos de fazer chover em tempo de seca. Padre Pinto liderou o processo de pacificação com os potiguares, reunindo chefes portugueses e caciques indígenas numa aliança firmada na Paraíba, em 1599. Logo depois, o padre Pinto foi transferido para outra missão na Serra de Ibiapaba, no Ceará, onde morreu como mártir, vitimado pelos índios Cararijus.

Enquanto os jesuítas cuidavam das missões nos aldeamentos indígenas, os padres diocesanos tomavam a frente das primeiras paróquias criadas para os portugueses e seus descendentes. A mais antiga é a de nossa Senhora da Apresentação, na sede da capitania, criada em 1598, antes da fundação da Cidade do Natal. Em seguida, foi criada a paróquia de Nossa Senhora da Purificação, em Cunhau, cuja referência mais antiga data de 1627. Ainda no século XVII, foi criada a Paróquia de Nossa Senhora dos Prazeres, em Goiaininha, no ano de 1690.
No período da dominação holandesa (1633 - 1654), a situação da Igreja na capitania sofreu um grande abalo pelas restrições à liberdade religiosa e, depois, pela aberta perseguição aos católicos. Os habitantes das duas paróquias então existentes, Natal e Cunhau, foram praticamente dizimados e as missões jesuíticas foram paralisadas pela ausência dos missionários.