“B” de Brilhante da Igreja de Natal
Por Mons. Francisco de Assis Pereira
Postulador e Arquivista da Arquidiocese
assispereira@supercabo.com.br

Diante do surto de renovação pastoral que floresceu na Igreja de Natal, a partir da década de 50, naquilo que se convencionou chamar de Movimento de Natal, o longo período que o precedeu nos 32 anos de governo de Dom Marcolino Dantas permanece na sombra e é visto por alguns como uma fase de pouca criatividade pastoral. Uma análise mais atenta da realidade nos leva a uma conclusão bem diferente.

Se é verdade que, nos últimos anos, sua saúde debilitada e o enfraquecimento ocular, com a perda quase total da visão, contribuíram para a diminuição de seu ritmo de trabalho, seu governo nos primeiros 25 anos mobilizou o clero, o laicato e a sociedade em geral para um intenso trabalho de evangelização que transformou a face da Igreja de Natal. Sem a limitação do tempo que caracterizou os três primeiros governos diocesanos, com duração de três a cinco anos, no máximo, Dom Marcolino teve fôlego para empreender nos seus 32 anos de governo pastoral um vasto programa em vários setores da administração diocesana. Foram experiências duradouras no campo da pastoral vocacional e do Seminário, no setor de saúde e nas obras sociais, que marcaram profundamente a vida da Arquidiocese, cuja influência ainda permanece.

A construção do Seminário de São Pedro, que ele iniciou ainda no primeiro ano de seu governo, veio incrementar novas e numerosas vocações, que resultaram na renovação de um clero jovem, unido e dinâmico e, ao mesmo tempo, ligado ao Bispo por laços de afeto filial. Dom Marcolino sabia conciliar bem a autoridade de pastor, da qual era extremamente cioso, com a bondade de seu coração de pai.
No campo da educação católica, sua atividade foi intensa. Fundou 11 colégios católicos, confiando-os a congregações religiosas masculinas e femininas. Não menor foi a sua preocupação com a assistência social aos pobres da cidade, centralizando o trabalho social e caritativo no Dispensário Sinfrônio Barreto, que ele construiu no centro da cidade, e enviando comunidades religiosas para cinco hospitais públicos ou particulares de Natal e para obras sociais de assistência aos órfãos e aos idosos.

Naárea da comunicação criou, em 1935, o jornal diário A Ordem, na época em que em Natal só havia mais um jornal diário.

Homem de letras, grande orador, poeta e musicista, Dom Marcolino estava presente no mundo da cultura. Um de seus mais belos sonetos, “O sofrimento”, foi publicado em antologias nacionais. Numa bela e sugestiva imagem, ele compara o sofrimento a uma lima que serve para burilar metais e pedras preciosas: Lima de Deus, a facetar a vida / desde o romper do seu primeiro instante,/ nessa limagem, nunca interrompida / mui pouca vida chega a ser “brilhante”.
Dom Marcolino pela sua vida, pela sua dedicação e amor, pelo seu sofrimento, se tornou, realmente, o “brilhante” da Igreja de Natal!